Capítulo Noventa e Oito

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— Puta que pariu... — ouvi o Raul praguejar baixinho, já descendo as pernas do Torquato.

No automático, fiz o mesmo e o deitei de vez, bem ao lado do Tiaguinho.

A luz do giroflex tava forte que só a porra, então, nem vi direito o PM descer, apenas o barulho da porta batendo e um vulto ao lado.

— Mão na cabeça, os dois! — o que tinha descido da porta do motorista ergueu a voz. Tinha uma voz forte, bem projetada pra comando mesmo. O complicado é que não dava pra ver direito a cara dele, apenas o brilho vermelho distante em seus olhos. Eu continuei parado e Raul fez o mesmo. — Anda, porra! Mão na cabeça!

— Fica calmo, chefia — Raul pediu, dando um passo na direção deles.

— Chefia o caralho. Anda, rapaz! Fica paradinho aí e mão na cabeça!

— Eu sou civil, colega — Raul já foi tirando o distintivo do bolso. — Tô numa...

— Pau no seu cu! — o PM o cortou na hora, apoiando um dos braços sobre o teto da viatura, enquanto apontava a peça. — Você pode ser o papa, que eu não te perguntei nada. Agora cala a boca e bota as mãos na cabeça. Vai, caralho!

Raul ergueu apenas um dos braços, o que tinha o distintivo e a luz do farol refletiu sobre ele, me dando a impressão de que o outro PM que tinha descido do passageiro e também tinha uma peça nas mãos, apontada para nós, mas não havia falado nada até então, havia perdido um pouco a sua convicção, porém, como tava na cara quem é que dava as cartas entre os dois ali, continuou como estava.

— Parceiro, eu tô numa investigação aqui — Raul falou calmamente, a mão ainda erguida, como se pudesse usar o distintivo como escudo. — Eu sei que a situação não está nada agradável, mas pode ficar tranquilo que a gente dá conta. Só estamos esperando o IML chegar.

O PM resmungou, descrente.

— E o distintivo do outro, cadê? — perguntou.

Que história de merda pra se inventar, Raul, suspirei comigo.

Abaixando o braço, Raul me relanceou por alguns segundos e voltou sua atenção para o PM que, mesmo contra a luz do giroflex, deu pra ver que estava sorrindo.

— Chega de conversa, cidadão. Bota a porra das mãos na cabeça e se vira. Agora! — o click do cão se preparando para o disparo ecoou tão alto que eu jurei que ele iria atirar na hora.

— Tá bom, tá bom — aflito, Raul colocou as mãos na cabeça em dois tempos, o que me levou a fazer o mesmo.

— É pra se virar também, caralho. Devagar.

Com meus dedos entrelaçados sobre a nuca, me virei, sentindo vontade de rir. O motivo? Só Deus sabia.

— Algum plano em mente? — perguntei baixinho pro Raul.

— Me perdoa, Alemão — ele respondeu. — Me perdoa, cara. Eu não devia ter te chamado pra cá.

Suspirei, fixando a sombra de um dos PM que crescia sobre a frente da van.

Em condições normais, eu simplesmente perderia o controle; taria gritando, esperneando e ameaçando Deus e o mundo por estar naquela situação, porque, maluco, era tão... tão do caralho o fato de que, após tanta merda que eu tinha feito na minha vida, a casa havia caído pra mim por conta de algo que eu não tinha absolutamente nada a ver. Só que, acho que devido a tudo aquilo ser tão irreal, eu só conseguia sentir um estranho vazio, quase como se eu não fosse eu mesmo.

Um dos dois — nem dava pra ver qual —, chegou até as minhas costas e pegando minhas mãos com tudo, as cruzou, prendendo meus pulsos.

Tive que fazer um esforço do caralho pra conter minha vontade de rir.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora