Há algo à espreita mais a frente
Miami Horror - Sometimes
O Café e eu tínhamos um negócio em comum.
Quem iria pensar, né? Logo o Café e eu? Porra...
O Café era tipo um às do bagulho, enquanto que eu tinha sido por toda a minha vida uma carta fora do baralho.
Mas não era assim no nosso tempo de moleque.
Naquela época, o Café não tinha todo esse respeito que ele tinha hoje; chegava nem perto disso, mas ele nunca se conformou por ser deixado de lado. Mas eu também tinha que dizer que ele procurava, mano.
A gente não andava junto o tempo todo, principalmente porque ele era quatro anos mais velho que eu, mas acontecia muito da gente tá no mesmo grupo de moleque quando brincávamos de esconde-esconde e especialmente de polícia-e-ladrão. O Café sempre quis ser ladrão, enquanto pra mim, sobrava o que os moleques mais velhos queriam e como o Café fazia parte desses "mais velhos", ele sempre podia escolher o que ele quisesse. Lembrando desses momentos hoje, eu conseguia entender que eu já via no olhar dele essa coisa que ele tinha de gostar de se sentir no controle do bagulho, de ter os outros caras temendo os olhares dele, de nunca ser zoado nem questionado. Só que, mano... naquela época, a gente era molecada de doze, onze anos; ele mesmo devia ter seus quinze, dezesseis e ele já não se satisfazia em comandar o bondinho da molecada. Muito pelo contrário, eu já tava era ligado naquela época mesmo que ele até se envergonhava de ainda estar andando com a gente.
O que ele queria mesmo era andar com os maluco lá dá doze, que já tavam puxando carro, se atrevendo a invadir banco e os caralho. Eram os caras que saíam de rolê pela quebrada e nós, a molecada, reconhecia de longe. Iludido pelo único mundo que eu conhecia, que meus olhos eram capazes de ver, eu mesmo faria de tudo pra poder andar com aqueles caras, ser um deles. Na época, eu tinha plena certeza de que a Carla da minha sala iria querer ficar comigo se me visse andando com eles...
Só que o Café era para os caras o que nós éramos pro Café: pirralhada, e tavam sempre dando um corte nele, mandando ele ir pra casa e tomar juízo na cabeça. Só que o Café não desistia e tava sempre indo lá, tentando provar a eles que tinha competência pra entrar no crime. Lembro até da vez que ele se juntou com uns colegas dele, quando tinha seus dezesseis, pra roubar uns carros perto do centro. Mas os caras que importavam mesmo não quiseram nem saber: pra eles, o Café não tinha a competência que o crime requeria. O Café não era nada, e isso garantiu a ele o seu apelido: os caras passaram a chamar ele de Café com Leite; aquele seu sobrinho chato que quer jogar videogame com você, mas não sabe porra nenhuma e aí você dá um controle desconectado pra ele só pra desbaratinar; ou o mais pequeno da rodinha que nunca é colocado pra bater cara porque não vai conseguir bater alguém e passar a vez e fica sendo o café com leite.
Só que com os anos, o Café deu seu jeito de virar a mesa e passou a ser respeitado. Ao ponto da rapaziada até tirar o "leite" do apelido e agora tava lá, disputando logo a liderança do bagulho com o Kalil.
Agora eu?
Ninguém dizia isso na minha cara, mas eu também não era mais criança pra confiar só no que diziam diretamente.
Tinham confiado vários trampos a mim, eu tinha crescido no Comando, tinha conseguido fazer a minha vida. Tinha minha adega, minha mulher, meus dois filhos. A Rayssa, minha mais velha, já tava na escola; uma escola boa, particular, que eu pagava caro pra caralho, com o meu dinheiro. Eu tinha do quê me orgulhar.
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Declínio
Gizem / Gerilim"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
