— Quem é? — Gabriel perguntou, cauteloso. — Ele me parece com...
— É. É o meu pai.
— Ai, nossa, que vergonha — ele teria se abaixado se eu não tivesse sido rápido o bastante para impedi-lo.
— Ei, calma. Relaxa — pedi. — Não tem que se esconder de ninguém não.
Tenso, ele consentiu, mas vi que tentou a todo custo evitar de cruzar o olhar com o meu pai, conforme eu ia embicando com o carro na entrada da garagem.
— Vou abrir o portão pro senhor botar o carro pra dentro — abaixando o vidro do carro, eu falei, acionando a entrada. Ele apenas assentiu e nem me olhou direito. Sempre tinha que ter alguma merda pra me estragar o dia.
— É melhor eu só pegar minha bolsa lá em cima e ir pro ponto, pra deixar vocês dois à vontade — ele falou bem baixinho, enquanto eu ia levando o carro para a área coberta embaixo do escritório no segundo andar.
— Que ir pra ponto, moleque. Olha a hora e como tá frio. Você vai subir pra pegar suas coisas e eu te levo de carro pra faculdade, que nem eu tinha te falado. Muda porra nenhuma meu pai aqui. Fica tranquilo.
— Tá... então, eu já vou ir subindo pra tomar banho — ele foi abrindo a porta, tão desajeitado que quase enganchou o braço no cinto de segurança.
— Cumprimenta meu pai primeiro — pedi.
— Tá. Claro... que grosseria a minha. Desculpa, Alexandre. Eu só fiquei com vergonha. Eu não queria destratar...
— Relaxa, meu moleque. Ninguém vai falar nada pra você.
Ele anuiu com a cabeça e desceu junto comigo.
Meu pai já tinha entrado com o carro dele; então, tratei de baixar o portão pelo controle e fui até ele, com o Gabriel se arrastando atrás de mim.
— Pai, esse aqui é o Gabriel — apresentei. Me pondo de lado, pro moleque ficar mais à vista, concluí: — esse aqui é o meu pai.
— Oi — forçando um sorriso, o moleque estendeu a mão e meu pai o cumprimentou, calado e rígido feito cimento. Nem olhou direito pra ele.
— Então, eu vou subir lá pra... pra ajeitar — coçando a cabeça, Gabriel já tava se afastando.
— Vai lá.
Esperei ele entrar dentro de casa, pra falar:
— Pai, eu não acho que agora seja uma boa hora pra falar sobre isso...
Ele comprimiu os lábios e tentou segurar o fôlego, o que não deu muito certo.
— O que você tá fazendo, Alexandre? — ele questionou, o rosto ficando vermelho. — O quê que deu na sua cabeça? Assim do nada você decide virar... você decide se envolver com outro cara! — ele não falou exatamente em voz alta, mas falou irritado, tentando estrangular o próprio tom de voz; acho que pro Gabriel não escutar. — Outro cara não, né? Um moleque. Quantos anos esse menino tem?
— Vai fazer dezenove.
Ele suspirou, desacreditado, esfregando a cara com as duas mãos.
— Ah, qual foi, pai? Por causa da idade...
— Que merda de idade o que, caramba — ele me interrompeu. — Podia ter cem anos. Isso não faz sentido! Você não tá entendendo que tudo isso aqui não faz o menor sentido?! Do nada, Alexandre. Do nada! Como é que você quer que eu entenda uma coisa dessas assim do nada?
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Declínio
Mysterie / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
