Capítulo Cinquenta e Seis

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— Quem é? — Gabriel perguntou, cauteloso. — Ele me parece com...

— É. É o meu pai.

— Ai, nossa, que vergonha — ele teria se abaixado se eu não tivesse sido rápido o bastante para impedi-lo.

— Ei, calma. Relaxa — pedi. — Não tem que se esconder de ninguém não.

Tenso, ele consentiu, mas vi que tentou a todo custo evitar de cruzar o olhar com o meu pai, conforme eu ia embicando com o carro na entrada da garagem.

— Vou abrir o portão pro senhor botar o carro pra dentro — abaixando o vidro do carro, eu falei, acionando a entrada. Ele apenas assentiu e nem me olhou direito. Sempre tinha que ter alguma merda pra me estragar o dia.

— É melhor eu só pegar minha bolsa lá em cima e ir pro ponto, pra deixar vocês dois à vontade — ele falou bem baixinho, enquanto eu ia levando o carro para a área coberta embaixo do escritório no segundo andar.

— Que ir pra ponto, moleque. Olha a hora e como tá frio. Você vai subir pra pegar suas coisas e eu te levo de carro pra faculdade, que nem eu tinha te falado. Muda porra nenhuma meu pai aqui. Fica tranquilo.

— Tá... então, eu já vou ir subindo pra tomar banho — ele foi abrindo a porta, tão desajeitado que quase enganchou o braço no cinto de segurança.

— Cumprimenta meu pai primeiro — pedi.

— Tá. Claro... que grosseria a minha. Desculpa, Alexandre. Eu só fiquei com vergonha. Eu não queria destratar...

— Relaxa, meu moleque. Ninguém vai falar nada pra você.

Ele anuiu com a cabeça e desceu junto comigo.

Meu pai já tinha entrado com o carro dele; então, tratei de baixar o portão pelo controle e fui até ele, com o Gabriel se arrastando atrás de mim.

— Pai, esse aqui é o Gabriel — apresentei. Me pondo de lado, pro moleque ficar mais à vista, concluí: — esse aqui é o meu pai.

— Oi — forçando um sorriso, o moleque estendeu a mão e meu pai o cumprimentou, calado e rígido feito cimento. Nem olhou direito pra ele.

— Então, eu vou subir lá pra... pra ajeitar — coçando a cabeça, Gabriel já tava se afastando.

— Vai lá.

Esperei ele entrar dentro de casa, pra falar:

— Pai, eu não acho que agora seja uma boa hora pra falar sobre isso...

Ele comprimiu os lábios e tentou segurar o fôlego, o que não deu muito certo.

— O que você tá fazendo, Alexandre? — ele questionou, o rosto ficando vermelho. — O quê que deu na sua cabeça? Assim do nada você decide virar... você decide se envolver com outro cara! — ele não falou exatamente em voz alta, mas falou irritado, tentando estrangular o próprio tom de voz; acho que pro Gabriel não escutar. — Outro cara não, né? Um moleque. Quantos anos esse menino tem?

— Vai fazer dezenove.

Ele suspirou, desacreditado, esfregando a cara com as duas mãos.

— Ah, qual foi, pai? Por causa da idade...

— Que merda de idade o que, caramba — ele me interrompeu. — Podia ter cem anos. Isso não faz sentido! Você não tá entendendo que tudo isso aqui não faz o menor sentido?! Do nada, Alexandre. Do nada! Como é que você quer que eu entenda uma coisa dessas assim do nada?

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora