— Se esqueceu de qual é o seu lugar aqui, seu rato do caralho?! — o maluco gritava, com os braços esticados em diagonal, enquanto ele apontava para o chão, como se fosse o dono daquela merda.
— Que porra é essa, Capuava? — perguntava o Tatu, num tom apaziguador. — Chegou metendo a mão no cara assim, por que?
Irmão...
Aquele maluco tinha mesmo me batido na cara?
Na cara?
— Fica aí na sua, Tatu, que o meu assunto é com ele.
NA MINHA CARA?!
Foi como mergulhar minha cabeça embaixo d'água, caralho. De repente, eu já não escutava os sons à minha volta com clareza e olha que eu não ficaria nem um pouco surpreso se descobrisse que meu peito estava pegando fogo de verdade.
Eu simplesmente encarei aquele filho-da-puta por meio segundo e avancei com tudo na direção dele.
Eu podia já chegar revidando o mesmo murro que ele tinha me dado, mas mesmo fora de mim, os conceitos básicos de uma briga, eu nunca deixava de lado. O Capuava podia não ser grande como eu, mas tava longe de ser pequeno também. O desgraçado tinha mais de um e oitenta e devia tá pesando na casa dos noventa. A não ser que eu encaixasse um bem dado na base do maxilar dele, eu não ia derrubar fácil e eu também não queria que ele apagasse logo de cara. O satanás que me acertasse na cara como ele fez tinha que apanhar acordado.
Vi nos olhos dele que ele não esperava a minha reação.
Se abaixando um pouco assim que cheguei até ele, agarrei o cuzão pelas costelas e usei todo o meu peso pra levá-lo ao chão, por baixo de mim. Não deu outra, foi uma pancada dura, mas ele amorteceu a minha queda e, com certeza, sentiu o tranco, pois eu pude ouvi-lo ofegar assim que bateu as costas contra o chão.
Ele tentou revidar, mas eu já estava o imobilizando com um dos braços e as duas pernas.
— Quer acertar o bagulho assim? — falei, entrecortado, conforme eu labutava pra conter o filho-da-puta que se debatia feito uma barata emborcada. — Você não aguenta comigo não, lagarto do caralho.
E finalmente eu obtive espaço.
Encaixei um murro certeiro na fuça daquele arrombado e não parei. Foi murro em cima de murro.
— Para, Alemão — exclamou Tatu. — Você sabe que esse tipo de coisa não se resolve assim.
— Sai fora, Tatu — alertei, sem parar de bater. E nem foi muito cansativo porque, dessa vez, eu apenas passei a descer meu peso sobre o meu braço. Mas tive de ir me contendo, porque eu vi pelo movimento dos olhos dele que ele iria apagar.
Minha mão já tava ficando meio melada de sangue.
Só que tava escuro e acho que levou um tempo pro Tatu perceber.
Quando enfim pareceu notar, ele voou em cima de mim e fez o impossível pra me arrastar de cima do Capuava.
— Calma, caralho! Vai matar o cara, porra! — ele berrou comigo, feito um pai com o filho tranqueira.
Ainda tive tempo de encaixar mais duas bicudas nas costas dele, enquanto deixava o Tatu me afastar.
E não é que o infeliz ainda tava bem.
Sem a ajuda de ninguém, ele conseguiu se levantar. Cambaleando, mas conseguiu. Desajeitadamente, passou a mão pelo nariz pra limpar a sujeirada de sangue na qual eu transformei a sua cara e foi levando a mão até a cintura, como se buscasse algo ali.
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
