Capítulo Oitenta e Cinco

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Foi um encontro embaraçoso.

Bom, pelo menos, não pra mim e se eu tivesse notado o desconforto apenas no cuzão do pai do Gabriel, eu não consideraria "embaraçoso", já que a opinião do sujeito não contava, mas o foda é que o moleque ficou sem saber como reagir também.

Eu tinha por mim que, em situações assim, as pessoas simplesmente desviariam caminho e fingiriam que nada tinha acontecido, ainda que tivéssemos praticamente esbarrado um no outro, mas era só fingir que não nos conhecíamos... não era?

Claro que isso era apenas o que o Gabriel e o pai dele queriam — por mim, o encontro valeria a pena, mas o moleque tava sempre em primeiro lugar pra mim.

Da parte do pai, eu senti que isso não aconteceu — dele pegar e cortar caminho como se não nos conhecesse —, porque a mulher que tava com ele parecia se lembrar do moleque.

Eu não diria que ela era feia, mas também não diria que ela era bonita, o que pra mim já era muito mais do que aquele arrombado merecia. Sem contar que os olhos escuros dela transmitiam aquele ar de gente boa. A coitada não merecia se envolver com um verme daqueles.

Aparentemente sem alternativas, o desgraçado resolveu falar, todo duro:

— Gabriel... como você tá?

Nem tinha olhado pra mim. Cuzão.

— Tô bem sim, pai, e o senhor? — o moleque engoliu em seco.

O sujeito apenas assentiu, positivo.

Me agradou pra caralho ver que o trabalho que eu tinha desempenhado na cara do filho-da-puta ainda estava presente: manchas aqui e ali e até um leve inchaço perto do olho. Fiquei pensando em que história o lixo deve ter inventado pra aquela mulher pra justificar os hematomas. Seria uma boa incrementar a brincadeira perguntando pra ele o que tinha acontecido? Seria, mano. Seria... só que o moleque ficaria boladão comigo depois, então, fui decidindo deixar o bagulho rolar e deixar nas mãos do cidadão o modo como eu o trataria.

— Ah, você que é o filho mais novo — ela sorriu, estendendo a mão pro moleque que tentou sorrir, sem muito sucesso, mas retribuiu o gesto e até foi puxado para um abraço breve, seguido de um beijo na bochecha. — Eu lembro de você... mais ou menos, que quando eu acho que te vi, você tava saindo de casa... mas foi de longe. Você não lembra de mim, não é?

— Eu vou pedir desculpas por isso, mas eu acho... eu acho que eu não lembro — ele ficou todo acanhado, bonitinho pra caralho, como sempre.

— Mas agora não vai poder falar mais que não lembra de mim, hum — ela riu, passando a mão pelo braço dele e, então, se virou pra mim: — e você?

— Ele é amigo do Gabriel — o arrombado entrou no meio depressa, tão tenso que parecia estar retendo o ar na garganta. Um soco bem dado na boca do estômago do filho-da-puta resolveria aquele problema rapidão.

— Amigo o caralho, mermão — retruquei. — Já sou praticamente o marido dele.

Ele encrespou a testa e por um momento pareceu que ia sair de ré, vazado, mas apenas me encarou, com raiva e vergonha ao mesmo tempo. Já a mulher, ficou meio boquiaberta, mas nada de mau gosto, ainda bem; ela ficou meio boquiaberta sim, mas com aquela sugestão de um sorriso entre os lábios de alguém que tá numa boa com o assunto. Até a mulher vai tratar o moleque bem e esse filho-da-puta que é o pai, fica nessa palhaçada.

— Vocês... vocês namoram mesmo? — ela encontrou a voz.

— A gente vive junto já — esclareci.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora