Capítulo Cento e Quarenta e Oito

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Na tv não se falava de outra coisa que não na morte do governador.

Até o momento, o bagulho tava meio nebuloso pra eles, mas tinham chegado a algumas conclusões. A mais importante é que já era consenso que havia sido um homicídio, e embora alguns especulassem que poderia ter sido decorrência de algum motivo banal qualquer como uma tentativa de roubo, por exemplo, já pipocava de forma mais direta que o buraco podia ser bem mais embaixo. Essa última teoria levantada por conta do assassinato recente do Comandante Geral da PM do Estado, o multiplamente condecorado Coronel Santiago — que até hoje eu tinha curiosidade pra saber como conseguiram engabelar a imprensa ao ponto do pequeno detalhe do sujeito ter sido decapitado ter sido omitido —, pois já tinha quem estivesse estabelecendo uma conexão entre as duas mortes.

A última coisa que vi antes de desligar a tv e ir pra fora me sentar diante da piscina porque o clima tava esquentando, foi um comentarista desses jornais falando que, se a morte foi ocasionada por um motivo maior, quem poderia ser o mandante daquilo, já fomentando uma disputa política mal resolvida.

Que foi a única parte boa por trás daquilo já que, quando levantaram a hipótese de que o Comando pudesse ter algum envolvimento, a maioria já foi descartando a chance, já que não acreditavam que o Comando pudesse ter tanta força pra derrubar governadores e coronéis da PM, quando mal conseguiam tirar seus chefes de presídios caindo aos pedaços.

E, curiosamente, após essa porra de já levantarem o papo de que haveria um mandante, tava eu falando por telefone com o Kalil.

— Eu não sei muita coisa sobre esse vice-governador aí não — comentei com Kalil, me sentando na espreguiçadeira, o que me permitiu ter uma vista completa da vidraça que separava a área externa da casa, pro caso do Rodrigo me aparecer por ali de surpresa. — Encontrei com ele umas duas ou três vezes e se eu dei bom dia pra ele, foi muito. Mas, e você... o que você me diz dele?

Kalil resmungou do outro lado da linha, procurando pela palavra certa.

É adequado — findou por dizer.

— Certo... — eu já esperava que, mesmo sendo de outro partido, o tal vice já estivesse familiarizado com o Comando. — O foda é que essa bagunça toda vai jogar muita atenção em cima de tudo o que o Lisboa tava fazendo. Eu só espero que essa sujeira não se espalhe até chegar na Vargo...

Fica tranquilo que não corre esse risco — ele me garantiu, a voz firme. — Depois do seu edital, o governo dele fechou mais outros quatro contratos com outras empresas e o de vocês foi aprovado numa boa, sem qualquer problema ou burburinho.

— Não, eu tô ligado, mas o caso é que o cara era o governador, irmão. Esse tipo de coisa, os caras não podem deixar passar batido. O que vai ter de tv, imprensa, partido e os caralho querendo saber o que foi que aconteceu de verdade, não vai ser brincadeira não.

Mas fica sossegado, Alemão, que as pessoas que importam mesmo, que vão tá dando as cartas nessas futuras investigações e tocando o bagulho de verdade, não tão interessados em saber o que foi que aconteceu. Pode ter certeza — ele falou. — O pessoal fica todo pá porque foi logo a porra de um governador que foi pro saco, mas ele não foi o primeiro e nem vai ser o último político de alto escalão a morrer desse jeito.

— Tá certo, então...

Mas que é triste que as coisas tenham terminado assim, ninguém pode negar. Eu vivia aconselhando que a gente tem sempre que cortar da nossa vida certas pessoas que só servem pra nos atrasar. Eu disse isso várias vezes pra ele. Várias vezes. Eu aprendi essa lição cedo e colocava ela em prática sempre que possível, até há pouco tempo mesmo... é realmente uma pena que ele não tenha aprendido há tempo.

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