Capítulo Trinta e Três

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— Pelo amor de Deus, eu não tenho dinheiro — ele tagarelava desde que o tínhamos enfiado dentro do carro. — Eu praticamente não tenho nada. Eu sou trabalhador, juro pra vocês. Eu sou trabalhador.

— Cala a boca, caralho — e vi o Raul dando um tapão na cabeça dele pelo retrovisor. A estradinha de terra já estava quase no limite e o caminho foi ficando cada vez mais irregular, com a Doblò sacudindo feito um boi num rodeio.

— Pelo amor de Deus, eu já falei pra vocês que eu não tenho nada em outro lugar — ele teimava em dizer, com o saco enfiado na cabeça e com a base bem atada em volta do pescoço pra não correr o risco de ele se mexer e conseguir nos ver. Eu estava bem tranquilo com o detalhe de que conseguiríamos sim terminar aquele assunto sem que ele pudesse ver, de fato, quem éramos, mas eu preferia garantir. — Eu já dei a senha dos meus cartões pra vocês, não dei? Eu dei. Vocês viram. Eu não tenho nada. Nada. Pode me largar aonde vocês quiserem que eu sumo e não falo nada pra ninguém; nem pra mulher, família, nada. Só me deixa ir embora, pelo amor de Deus.

Ele tinha dito a verdade e era isso o que mais me surpreendia naquela história toda. Raul e eu pegamos os cartões dele e fomos rodando em caixas, alguns postos e nuns mercados que trombamos pelo caminho e o filho-da-mãe só tinha uma mixaria num dos cartões e apenas cem conto de limite no único cartão de crédito que tava ativo.

Ela realmente quer cortar todos os laços possíveis, eu tinha pensado comigo.

— Por favor, eu...

E Raul deu mais umas duas porradas nele, o fazendo trocar sua ladainha pelos gemidos de dor.

Tínhamos chegado.

A mata era fechada por toda a volta, mas ali havia tipo uma clareira no meio das árvores, na onde o chão era recoberto por pedras ao invés de terra. Já era de conhecimento de muitos que algumas obras logo chegariam ali; o que era uma pena, pois teríamos de buscar outro lugar.

Teríamos não. Eles vão ter que trocar. O sol dessa vida está se pondo pra mim, mermão, eu tinha pensado, enquanto pulava pra fora da Doblò.

— Pronto, cidadão. Já pode parar de chorar que a gente chegou — disse Raul, correndo a porta para abri-la. — Vamo' descer.

— Mas chegamos aonde? — ele começou a gaguejar.

— Você não tava enchendo o saco implorando pra gente te largar por aí? Pois então. Vamo' te largar aqui.

— Mas eu... eu não sei aonde...

Sem mais paciência, Raul deu mais dois murros no peito dele e o arrastou com tudo pra fora. Tive que ajudá-lo, pois o filho-da-puta não era nenhum peso pena e como a gente tinha amarrado as pernas e os pulsos dele, não tinha como ele se mover por conta própria.

O arrastamos até o centro da clareira; com ele de pé de algum jeito.

— Vocês vão me soltar aqui, mas eu nem conheço...

— Ajoelha — Raul ordenou.

— O que? Mas eu...

— Ajoelha, porra! — sem dar tempo para uma segunda chance, Raul deu uma bicuda na parte de trás do joelho dele, o fazendo cair com tudo.

— Não, pelo amor de Deus. Podem me largar aqui mesmo — ele começou a chorar. Não acho que naquelas ocasiões ele chorasse, mas enfim, não fiquei surpreso. Eu já tinha ela nas mãos. — Amarrado se vocês quiserem, mas podem me largar. Eu, eu... eu não tenho dinheiro. Não tenho... mas, mas a minha mulher tem! Ela tem, cara. Acredita em mim. Ela ganhou na loteria faz pouco tempo. Pegou uma bolada. Liga pra ela. Liga pra ela que ela paga meu resgate. É só ligar. O número... tá na minha agenda; tá salvo aí. Vocês tão com meu celular, só pegar e ligar pra ela que ela paga o que vocês pedirem.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora