Era a terceira vez que eu fazia aquilo.
Mas, ai meu Deus, essa "experiência" não estava me servindo de nada pra me manter tranquila.
Acho que pelas chances a meu favor serem pequenas.
Eu conhecia bem aquele mundo pra dizer que esse tipo de coisa, por mais bem planejado que fosse, era quase como um tiro no escuro. Uma abelha voando pela rua poderia desencadear algo que arruinasse o meu plano.
E era aí onde meu adorado marido costumava pisar na bola.
A arrogância dele sempre o cegou para a casualidade.
Mas esse era um erro que eu não me dava ao luxo de cometer.
Olhei no celular pela décima vez.
Ele estava dez minutos atrasado.
A rua deserta, mas eu não me sentia completamente sozinha com a música desengonçada que as maritacas faziam nas árvores que se erguiam por trás do muro quase demolido de um galpão antigo.
Eu tinha descoberto que havia sido uma fábrica de plástico alguns anos atrás.
Finalmente, ele chegou, num corsinha do começo dos anos 2000.
Isso foi pra não chamar a atenção? Me perguntei, passando a bolsa por cima do ombro e me afastando do muro. Ele encostou o carro e fiquei mais tranquila ao ver que estava sozinho. Eu admito que estava morrendo de medo de ele aparecer com alguém pra fazer alguma coisa comigo. O Alceu sempre tinha se comportado como um cara gente fina, mas eu não confiava nesse povo do Comando, mesmo eu sendo esposa do Liedson.
— Faz tempo que eu não venho aqui — ele comentou, olhando pras árvores, os olhos apertados por causa do sol. Alceu era um cara meio barrigudo, passado muito dos quarenta, com uma pele parda que tinha um certo toque de vermelho, acho que por causa do sol. — O que o Café tem pra mim de tão importante pra você me arrastar pra cá?
— Não vai me cumprimentar primeiro não, cão? — eu ri, passando a mão pelo cabelo. — Caiu da cama hoje, foi?
— Bom dia, amor da minha vida, como foi que você dormiu? — ele debochou.
— Nossa... — bufei. — Brigou com a mulher de novo, foi?
— E quando é que eu não brigo? Aquela desgraçada tá doida. Botou na cabeça dela que eu tô traindo ela e é eu olhar pro lado que ela surta.
— E não tá? — botei minhas mãos na cintura.
— Aí depende do que você considera traição — ele me lançou aquele olhar que...
— Não quero nem saber desse rolo, homem.
— Olha que eu não tenho certeza não, Milla. Uma mulher sozinha há tanto tempo como você, com o Marido preso.
— Eu não estou interessada, obrigada.
— E eu tô brincando também, poxa. Você acha que eu vou querer encrenca logo com o Café, parceiro aí de vida? — ele enfiou as mãos nos bolsos. — Cunhada pra mim é homem, pô, você sabe. Só brinquei porque você tava aí dando a entender que eu tô mal humorado.
— Ok, tudo bem. Eu entendi — rindo, fui pegando o pacote dentro da bolsa.
— Vixi, pela comoção, deve ter é aqueles troço radioativo nesse pacote.
— Você que vai descobrir, porque eu não faço ideia do que tem aí dentro — menti.
Ele me olhou, desacreditado e, por um momento, fiquei com medo da hipótese do Alemão ter comentado com ele sobre o pacote. Odeio isso de brincar com a sorte.
— Vamos ver isso aí — ele pegou o pacote, o balançou e o levou pro carro, o guardando no porta-luvas. Quando saiu, talvez, pra se despedir, correu um olhar rápido pelos dois lados da rua e me falou, confuso: — veio como pra cá?
— De Uber.
— E ele aceitou a corrida pra te largar num fim de mundo desses? — ele fez bico. — Mesmo sendo de dia, sujeito corajoso, hein? Ou era transportador?
— Transportador — tornei a mentir.
— E ele não te esperou?
— Pedi pra não esperar. Ai... eu acho que é melhor usar dois carros diferentes pra não dar na vista.
— Não acha melhor voltar comigo não? Se acontece alguma coisa com você e o Café descobre, ele me mata sabendo que eu te deixei aqui sozinha.
Suspirei, tentando me acalmar.
— Quer saber? Eu vou voltar no seu carro sim — era isso, né?
Quase correndo, fui na direção do carro com a bolsa apertada contra o peito e passei por ele, pronta pra sentar no banco do motorista, acessível pela porta que ele tinha deixado aberta.
Sem entender nada, ele riu:
— Oxi, quer ir dirigindo o meu carro? Se bem que é uma boa... tô cansado de dirigir. Vai no piloto mesmo, se é o que você quer.
— Você não vai voltar no seu carro — virei pra ele, tirei a pistola e disparei quatro vezes. Quatro furos: dois no peito, um quase na barriga e outro no pescoço.
Ele apertou os olhos, piscando, como se eu tivesse botado um farol na cara dele e caiu pra trás.
Pulei de volta pra calçada e disparei mais duas vezes, na cara mesmo.
Eu tinha de me garantir.
Eu sentia meu braço dormente dos impactos do revólver.
Meu Deus, o que foi isso?
— Eita — joguei o cabelo pra trás, cocei o ouvido pra tentar tirar aquele zumbido chato e tratei de ligar pra polícia. — Alô? Um homem foi baleado aqui em... — eu deixei escapar um sopro que quase se transformou numa gargalhada. Que fora, meu. Por que eu queria rir logo agora? — Ele tá caído aqui. Acho que tá morto. Atiraram nele e foram embora.
E eu tive que afastar o celular do rosto, pra que a atendente não me ouvisse rir.
Passei o endereço e abri o pacote, mas deixei as notas com ordens de pagamento emitidas por bancos estrangeiros lá dentro; era como o Café pagava os advogados da Sintonia da Gravata; pelo menos, aqueles que estavam sob seu guarda-chuva.
Era o gatilho que o meu marido precisava para agir.
E por falar em gatilho, por que não dar outro tiro?
Só mais maluco que atirar de novo era continuar rindo como eu estava fazendo.
Então, eu fiz os dois.
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Declínio
Mystère / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
