Capítulo Cento e Cinquenta e Oito

542 43 34
                                        

— Fentanil — entoei baixo, esfregando o frasco entre meus dedos. — É foda acreditar que uma porra dessas é mais forte que heroína.

E entreguei o bagulho pro Baja por cima da mesa.

— Apesar de ser um pouco diferente, o princípio disso aqui é o mesmo da heroína — Baja explicou, observando o frasco. — É tudo da mesma família... que os caras chamam de opioide. Lá fora, é uma treta desgraçada por causa desse amiguinho aqui.

— 'Cê é louco, esses gringo só inventam o que não presta — comentei.

— É que nem eu tinha te falado daquela vez; os americanos são tudo doido, irmão. Ficou com dor de cabeça, uma dorzinha aqui, eles não fazem que nem a gente não que vai tomar uma dipirona, um ibuprofeno... eles tomam logo essas porra que derruba o cara rapidão. E o bagulho vicia, hein. Os caras ficam feito zumbi por causa dessa merda aqui.

— O bagulho já tá rodando pela rua? — fiquei curioso.

— Tem uns doido usando aqui e ali, mas é praticamente ninguém... então, não. A gente pode dizer que tá em fase experimental — e deu risada.

— O Café deu a entender lá que não sabe muito sobre o bagulho — lembrei. — É verdade mesmo ou é cena dele?

— Não, dessa vez, ele tá falando a verdade. Você conhece o Café também, Alemão. O cara é meio pra essas fita. Do lado dele lá, quem tá mais por dentro disso aqui é o Capuava que vê o bagulho como se fosse uma grande revolução comercial, só pra você ter uma ideia.

— Só podia mesmo — resmunguei. — Mas sei lá, cara... eu nem cheguei a ver na prática como é que é a noia de alguém que usa uma porra dessa e também não é nem querendo bancar o mano com consciência social, mas sabendo que isso aí vicia que só a porra e que uma dosagem mínima já é o suficiente pra matar o cara de overdose, 'cê acha mesmo que é uma boa soltar isso aí pra geral?

Ele fez bico.

— Pra ser sincero, Alemão, eu não vejo isso aqui se espalhando como cocaína e crack não, viu. Pra produzir isso aqui é um processo mais complicado. O mais perto que a gente tem no Brasil é morfina, mas não é fácil de se conseguir e é... relativamente mais caro. Descolar químico qualificado pra sintetizar isso em escala grande o suficiente pra distribuição em massa igual se faz com pó e pedra? Fora de questão — ele garantiu. — Te falei que tem uns doido usando, mas é boy, porque é caro e é esses vacilão que escuta rap e quer pagar de gringo.

— Tá tirando, mano. Rap é daora, pô — brinquei, tentando não rir.

— Se a gente tiver falando de um Facção Central aí é outra história, mas essa pivetada nova aí que quer fingir que é 50 Cent, você tá de brincadeira com a minha cara — ele reclamou. — Bagulho feio, mano. Esses dias tava minha filha, a Ana Helena, vindo com uns papo de americano, falando de Beyoncé e essas porra e que é exemplo pra gente, vai se foder. Essa raça desgraçada nem sabe que a gente existe, irmão.

— Tirando o pagodinho que tu escuta, você vive em rave, caralho — dei risada. — Tá falando do que?

— Eu vou pra rave porque eu curto os eletrônico, mas eu sei lá quem é que tá fazendo as música, caralho, e não fico por aí falando que o cara que tá tocando lá é exemplo pra alguma coisa e que a gente tem que pensar igual. Ainda mais americano, mano... — ele virou pra trás, buscando pelo Paraguai no bar que tava demorando pra caralho pra trazer o uísque. — Lembra daquela vez que a gente foi pros Estados Unidos? Vou levar a palhaça pra lá, pra ela ver como americano trata brasileiro.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora