— O sujeito confessou alguma coisa? — perguntou Lisboa pro Kalil que andava de um lado para o outro com o celular no ouvido.
— Meu ponta lá na alfandega falou que ele só pediu um advogado e não abriu mais o bico — respondeu ele, tirando o celular do ouvido e digitando alguma coisa.
— Isso é bom — comentou o Tesoura, assentindo com a cabeça. — Muito bom, inclusive.
Pro Paraíba não, pensei, tragando o cigarro vorazmente. Dizer a PF que só pretende falar na presença de um advogado é praticamente assumir a culpa. O foda é que eu tinha plena certeza de que o Paraíba não tinha noção disso.
O mais inteligente a fazer seria deixar a situação como estava, mas eu não podia ser apenas "inteligente". Caralho, o Paraíba era meu funcionário. Só entrou naquela merda por causa do filho-da-puta do Ademir. Eu não ia deixar soldado meu ferido na batalha pra trás.
— Então, eu vou arrumar um advogado pra ele — falei. — Claro que eu vou dar meu jeito de fazer parecer que esse advogado foi contratado pela família dele, pra não criar nenhuma ligação comigo.
— Eu não acho bom, cara — interpôs Capuava.
Eu não estava gostando muito daquilo.
Do governo, apenas Lisboa estava presente; da transportadora, somente Ademir e eu. O restante... tudo cabeça de chave do Comando. Kalil, o próprio Capuava, o Tesoura e outros sujeitos — que provavelmente eram irmãos, que eu desconhecia. Se bem que eu não posso considerar o Capuava como cabeça de chave... nem chega perto disso.
Eu sabia desde o início que era o Comando por trás daquilo, mas isso serviu somente pra me deixar tenso. O idiota do Ademir parecia pensar que era mais seguro confiar neles do que no governador. Em tese, ele não estaria tão errado assim, mas o fato é que, ao contrário do governo, havia uma certa instabilidade entre eles. Claro que hoje o negócio não era tão perturbado quanto a uns dez anos atrás, enquanto eu meio que era associado, mas a verdade é que o Comando funcionava melhor como instituição do que como irmandade, como havia sido proposto originalmente lá na década de noventa.
As constantes tensões entre a ala de cima e as ocasionais disputas por comando poderiam nos foder completamente caso Kalil e seus aliados mais diretos "saíssem de cena". O desgraçado do Ademir não fazia ideia daquilo, o que me deixava limitado a ter esperança de que ao menos Lisboa tivesse alguma noção daquele detalhe.
— Então, eu tenho que deixar meu funcionário se foder? — perguntei pro Capuava. — É isso?
— Melhor ele do que você — exclamou Capuava, erguendo os ombros. — Não era pra ter acontecido isso. Tava tudo direitinho, sem erro. Os cara ainda não explicaram direito, mas tenho certeza que o que deu errado, foi da parte desse Paraíba aí. E já que a merda foi pro brejo, melhor cair um do que cair dois.
— Não tem porque cair os dois.
— Mas é o que vai acontecer, grandão — argumentou Capuava, abrindo os braços. — Você arrumando advogado aí pro cara, isso chama a atenção da imprensa. Dá merda pro teu lado.
— E a presunção de inocência fica aonde? — contrapus. — Chamar a atenção da imprensa? Essa carta aí já entrou na mesa no momento em que pegaram ele. Não tem mais o que fazer pra impedir. Se isso acontecer, aconteceu. O cara foi pego no meu caminhão. Alguma atitude eu tenho que tomar. Além disso, o cara é meu funcionário a anos, é normal que se espere um voto de confiança da minha parte, não é? E se ele for inocente, hã?
— Mas ele não é — Kalil tomou a palavra. — Nem você. Tomar uma atitude precipitada só vai nos deixar mais perto da Federal chegar a essa conclusão. Pra falar a verdade, tenho quase certeza de que já chegaram a uma conclusão. A questão agora é se a gente vai dar munição pra eles provarem isso.
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
