Já tinha anoitecido.
Mas o que importava? Eu não tinha nada pra fazer pelo resto do dia e até da semana, talvez, então...
O que era estranho, mano, afinal, eu sempre estive ocupado, nunca fiquei com essa sensação na cabeça de ficar atoa, até meio deslocado, mas era assim que eu me encontrava no momento.
Desci do carro e, por sorte, o portão da casa dos meus pais tava aberto e fui entrando, chamando assim que botei os pés na sala:
— Pai? Pai?
Do nada, um Adriano assustado saiu da cozinha, com um copo de água na mão.
— Adriano? Tá fazendo o que por aqui?
Acho que assim que assimilou, ele trocou o ar de surpresa e ficou meio emburrado.
— Ah, o amigo da onça.
— De que porra você tá falando?
— O que eu tô fazendo aqui? — ele repetiu, debochando. — Eu tô morando aqui agora, mano. Por sua culpa.
— Minha culpa?!
— É — ele voltou pra cozinha e eu fui na bota dele. Deixando o copo em cima da pia, ele começou a fingir que tava ocupado com a louça só pra não me encarar, eu reparei.
— Como assim minha culpa, caralho? Por que você saiu da sua casa...? — foi aí que eu me lembrei da merda que tinha acontecido lá na "festa" sem sentido que eles tinham organizado. — Não resolveram essa porra ainda?
— E como é que se resolve isso, Alexandre? — ele finalmente decidiu me encarar. — Por mim, já tava tudo acertado, mas a teimosa da Estela não se dobra. Caramba! Eu até tava pensando que era só aquelas birras que ela sempre faz; ela sempre foi assim, sempre foi de ficar quieta e se afastar quando eu não fazia o que ela queria, mas sempre por pouco tempo e... e ela sempre deu espaço pra eu ir lá me desculpar, mas ela me bloqueou de tudo e até o número pré-pago que comprei pra ver se conseguia falar com ela, assim que eu abri a boca, ela desligou e bloqueou esse também.
Eu vou admitir que estava um pouco surpreso.
Apesar do grande show que ela fez naquele dia, eu tinha como certo que eles iriam voltar ao normal em pouco tempo. Talvez, ela tenha se arrependido da vergonha que a cena vai marcar na lembrança dos amigos e dos parentes dela e que agora, talvez, seja mais vergonhoso voltar atrás, pensei.
— Eu gosto da Estela e tudo — fui falando pra ele —, mas o negócio dela é o que as outras pessoas vão pensar. Você tá ligado que a sina dela sempre foi essa e a sua também, por isso vocês dois sempre se deram bem. É só pensar aí com você como usar isso a seu favor.
— Você acabou com a minha vida, Alexandre — ele tornou a reclamar, feito uma criança. — A família dela não quer nem saber de mim, o pessoal, os caras... é só me ver que vem tudo querer me arruaçar e...
— Eu acabei com a sua vida? — o interrompi. — Vai se foder, Adriano. Você que se fodeu sozinho com essa boca aberta do caralho. Eu nem sabia dessa história e nem te perguntei nada. Você que começou a falar essa merda do nada pra desrespeitar o moleque lá e devia tá satisfeito de eu não ter arrebentado tua cara naquele dia. E a brincadeira que a Estela fez lá? Você tá achando que ela bolou tudo aquilo de última hora, só porque ouviu você falando mais do que a boca? Pela tua cara naquele dia, ganhei na hora que você saiu com a travesti que ela trouxe e as duas se conheciam, malandro. Ela já tava sabendo dessa sua porcalhada tinha tempo, você ter exposto ela, se crescendo pra cima de mim, foi o que fez ela estourar.
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Declínio
Tajemnica / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
