Desejando o melhor, mas esperando o pior
Youth Group - Forever Young
Assim que saí do chuveiro, dei de cara com Leonardo, o cabelo bagunçado que me indicava que tinha acabado de acordar, aquele sem vergonha. Era meio-dia. Me olhou como se fosse completamente normal, arrancando um pedaço do pão que trazia consigo com uma dentada, os olhos ainda inchados.
— Mas, menino... você acordou agora?
— Eu fui dormir tarde ontem, mãe — ele resmungou, emburrado.
— Agora o porquê de ter dormido tarde assim eu queria muito saber. Porque da escola pra cá, dá pra chegar aqui onze e dez, onze e quinze no máximo. E se você pensa que eu não vi que você só entrou pra dentro de casa era mais de uma da manhã, você deve tá achando que eu sou palhaça. Eu só não fui lá acabar com você pra não acordar seu pai.
— Desculpa, mãe — fazendo cara de coitado, ele foi voltando para a cozinha. — Eu tava com os moleques da escola e aí... aí a gente perdeu a hora.
— Leonardo, você não tem dezoito ainda não pra ficar passando madrugada em rua, menino. Não quero.
— Mas eu faço dezoito já no ano que vem, mãe.
— Não importa. E mesmo com dezoito... o que é que alguém tem pra fazer na rua de madrugada no meio da semana, Leonardo?
— Nada de mais, mãe. A gente tava só conversando.
— Conversando, sei — abrindo a bolsa, fui conferindo pra ver se eu não tinha esquecido nada pra trás. Não. Tudo ali em seu devido lugar.
Eu não achava que ele tivesse aprontando alguma como usando droga ou se envolvendo com essa molecada que vira a noite feito uns cão, roubando os coitados de madrugada, mas esses dois caminhos tinham suas portas de entrada e eu sabia que ficar passando a madrugada "conversando" por aí, era só mais um jeito de chegar mais perto delas e isso eu não ia deixar acontecer.
— Ó... — chamei a atenção dele que se virou. — Tô saindo agora pro trabalho, viu? Não esquece. O homem que vai ver o banheiro veio aqui mais cedo. Avisa seu pai quando ele chegar que eu pedi pra ele voltar no começo da noite pra acertar tudo com ele. Não esquece de avisar seu pai antes de ir pra escola, porque você sabe que ele não atende celular quando tá no serviço.
— Tá bom.
— E fica de olho pro caso de ele chegar e já ir direto pro bar, porque eu não aguento mais o chão desse banheiro. E sua tia vai trazer comida pra você e seu irmão antes de você ir pra escola. E eu não quero chegar em casa e você ainda tá na rua, Leonardo, você tá me entendendo?
— Tô, mãe — exclamou, impaciente como sempre.
Ele tava pra virar de volta pra cozinha, sumindo da minha vista, quando eu tive aquele estalo, mas eu não soube como falar. Como falar aquilo, meu Deus?
— E, filho... só mais uma coisa.
— O que foi, mãe?
— Seu irmão não foi pra escola hoje, né?
— Não. Ele tá lá na sala vendo tv.
— Então... eu... — não adiantava. Por mais que me esforçasse, eu não conseguia lidar bem com aquele assunto. Em voz baixa, desembuchei de uma vez: — eu queria que você ajudasse seu irmão com isso.
Se aproximando, ele me olhou sem entender.
— A senhora quer que eu acorde mais cedo pra obrigar ele a ir pra escola?
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
