O foda foi que o Baja também ficou surpreso de me ver ali.
Instintivamente, eu passei a sentir ainda mais o toque metálico da ponto quarenta que eu trazia comigo na cintura, especialmente porque sentado ali no sofá, ela ficava mais apertada contra a minha pele.
E lá estava eu, mais uma vez, naquela mesma situação.
A mesma situação de quando o Café quase pegou os caras que o Russo tinha mandado no baú do caminhão que eu tinha descolado pra ele. Aquela sensação pulsante no peito, aquela aceleração, a respiração cada vez mais irregular... quando eu era mais molecão — e até recentemente, não vou meter o louco e dizer que não —, eu curtia demais toda aquela adrenalina de tá dançando no fio da navalha, mas é aquelas, né? Quando é uma vez ou outra, a gente meio que aprende a aproveitar o bagulho, mas quando é constantemente, é de uma agonia inexplicável, mano. Eu sentia como se fosse infartar a qualquer momento e só piorava eu ter que me esforçar em dobro pra esconder toda essa aflição deles.
Mas que outra escolha eu tinha?
Eu tinha que tá pronto pra tudo.
Então, me ajeitei sobre o sofá de modo que eu conseguiria sacar a peça assim que necessário.
Como o bagulho era engraçado, mano. Há alguns instantes, eu tava pensando num jeito de dar um toque no Miguela pra salvar o rabo dele e agora eu tava ali, pronto pra dar fim no cara.
Dar fim nos três aqui?
Se o Baja me entregasse, eu não tinha outra alternativa.
Só que a vida não era um filme de ação, tá ligado? Ninguém mata três caras assim, como se eu fosse a porra do 007. Ainda mais porque era certeza que pelo menos o Café e o Baja também estariam armados.
Porém, tinha outra fita naquele rolo todo. Eu já vivia naquele mundo há tempo demais, meu amigo. Não seria a primeira vez que eu me via diante de uma treta daquelas... e a verdade é que, por mais que os caras estivessem na correria e, teoricamente, deveriam estar prontos pra qualquer merda que acontecesse, como o Russo sempre dizia: "tem que tá preparado pro caso de acontecer alguma coisa e sempre acontece", eu tava bem ciente que nenhum deles ali esperava que algo assim pudesse partir de um de nós quatro. Nem mesmo o Baja que sabia que eu tava ajudando o Kalil naquela merda. Ele pode esperar algum tipo de reação minha, mas que eu saque minha peça e bote os três no chão? Não, nem fodendo. Portanto, o mais natural seria que assim que sacasse o bagulho e acertasse o primeiro — e se acontecer, o primeiro vai ser o Café —, os outros dois ficariam tão em choque que eu teria tempo pra derrubar o Baja e depois o Miguela que algo me dizia — tão fortemente — que não estava armado.
Mas, pé no chão, seu arrombado do caralho, disse a mim mesmo, controlando minha respiração. Você já disse que essa porra não é um filme... aja de acordo.
— Demorou pra caralho, hein, irmão? — Café foi correndo um olhar rápido pra dentro das sacolas, enquanto as deixava sobre a mesa de centro. — Pensei que tinha saído com os maluco lá pra pescar os peixe.
— O tanto que eu pedi também... foi uns quarenta minutos — Baja se explicou, se recompondo e indo até a mesa deixar o restante das sacolas. E aí, ele se voltou pra mim: — não esperava te ver aqui não, Alemão.
Sem deboche no tom, mas não me deixei enganar.
— Também não esperava te ver por aqui — abri um sorriso, me levantando pra cumprimentá-lo. — Fiquei sabendo que você ia se afastar da caminhada por uns tempos.
— O Baja? — Café riu, apertando o ombro dele. — Esse aqui é meu ponta direita, Alemão. Posso ficar sem ele não. Mas, eu tava querendo manter ele fora do radar mesmo pra, tá ligado, meio que confundir o Kalil e o Russo.
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Declínio
Mistério / Suspense"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
