Ele não desgrudava os olhos da peça.
Olhando de um jeito, irmão... que não dava pra ter certeza se ele tava assustado ou admirado com o bagulho.
Minha primeira reação foi guardar o ferro na minha cintura de novo, tentando me certificar de que o bagulho não tava marcando por baixo da camiseta — não que fosse fazer alguma diferença depois de tudo o que o meu sobrinho deve ter visto.
— Parou, Edivaldo! — gritou Nisandro de dentro do quintal. Nem tinha reparado que ele tava por ali também. Me virei e percebi que o irmão do Ismael tinha se levantado, meio atordoado, a cara com um rastro de sangue descendo em diagonal, mas parecendo estar disposto a me atacar. — Acabou! Essa confusão aqui já deu o que tinha que dar, chega!
E ele realmente parou, obedecendo o pai.
Gabriel ainda me olhava, como se esperasse que eu viesse a sacar a peça de novo, mas não era assim que as coisas deviam ser. Não era, porra. Eu... foi difícil dar o primeiro passo — porque eu tava mais do que ligado do que era certo fazer ali —, mas eu tinha que me esforçar. Se eu suportava tantas coisas naquela vida que eu tinha, por que não suportar mais essa, pelo bem do moleque?
Suspirei e me virei pro irmão do Ismael, falando, sem olhar de verdade pra cara dele:
— Desculpa. Eu me excedi.
Ele apertou as sobrancelhas, confuso, mas não falou nada.
O que veio a seguir foi ainda mais difícil.
Dei meia volta pra encarar a filha-da-puta que me olhava com raiva e falei:
— Me desculpa também... eu não devia ter te xingado. Me desculpa...
Ela não teve a mesma reação do filho, que eu tinha notado uma ligeira sugestão de estar "bem", assim por dizer, por ouvir eu me desculpando, mas não deixou de transmitir alguma surpresa.
Que merda...
O que eu tava fazendo, mano? Ali, armado, saindo no braço de novo...
Me virei de costas pro Edivaldo e esfreguei minha cara, suspirando fundo. Meu peito chega tava dolorido; era agonia demais, que não me cabia. Olhei pro outro lado da rua e simplesmente me senti deslocado, como se não fizesse sentido nenhum a tranquilidade da rua, o céu limpo e o dia claro... o certo pra mim é que estivesse chuvoso, o céu escuro e trovões estrondeando que só a porra. Meu peito praticamente me implorou por um pino que eu sabia que estava a poucos metros de mim, embaixo do banco do motorista, ao ponto de eu quase sentir minha respiração falhar, mas eu iria me manter firme, eu iria.
— Filho, você quer ir com o seu tio pra ir ver sua mãe? — Nisandro perguntou pro moleque, pousando a mão em seu ombro.
— O que? Você tá ficando louco? — Mirtes exclamou. — Você não viu o que aconteceu aqui? E quer deixar o menino ir com esse bandido? Ele tá armado!
— Chega, Mirtes! — ele gritou, o rosto ficando vermelho. — Já chega, caramba! Você já pirraçou, conseguiu o que tanto queria, pra quê continuar com isso? Pra continuar essa confusão que a gente viu agora? Vamos viver a vida inteira nisso, pra você poder se vingar do que você acha que aconteceu?
— O que eu acho?!
— Eu não quero mais saber desse estresse todo — ele balançou a cabeça com violência. — Eu tô cansado, mulher! Eu não aguento mais. Você sabe que o menino sente falta da mãe, ele fala!
— Ele não sabe o que...
— Chega! Pelo amor de Deus, chega! Tudo o que você vai conseguir com isso é fazer com que esse menino pegue raiva da gente. E eu não quero isso — ele falou.
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Declínio
Misterio / Suspenso"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
