Tinha uma multidão da porra na minha frente, mas quis nem saber, fui empurrando todo mundo, quase caí, mas consegui sair do mar de gente, dando com o cruzamento que antecedia o pancadão. O bagulho — agora ressaltado pela minha cabeça turva — me levou a pensar naquelas cenas de desenho onde o personagem se vê diante de dois caminhos paralelos, sem saber por qual deles seguir.
Não via mais sinal nenhum dos dois.
— Quer me matar do coração, Alexandre! — o moleque me virou pelo braço, irritado, enquanto ofegava. — Por que você saiu correndo assim? Quem foi que você viu?
— A irmã do Carcará.
— A Gabriela?
— Esse é o nome dela?
— É — o moleque olhou pelas duas ruas que se encontravam e fez um bico. — Tá, você viu ela, mas e daí? Ela te chamou?
— Não... o Micha tava com ela. Tava correndo atrás dela.
— E quem é Micha?
— É... é um desafeto do irmão dela. Puta que pariu... o cara é um lixo, se ele tava correndo atrás dela assim...
A expressão tranquila na cara do moleque se desfez e ele deu um passo na minha direção, como se quisesse a minha proteção.
— Não fala desse jeito que você me assusta. Você acha que esse cara quer matar ela?
— Eu não sei.
— Mas... mas tem certeza que eram eles mesmo que você viu? — o moleque tentou focalizar meus olhos.
Parei.
Parei, mas minha cabeça continuou girando e me senti capaz de cair pra trás, tamanho o torpor da bebida que mareava dentro de mim.
— É... talvez, eu teja só chapando mesmo — falei.
— Mas eu fiquei preocupado... — ele voltou a olhar em direção as duas ruas e pareceu estar mais sóbrio. — Depois da explosão lá... Deus me livre de acontecer mais alguma coisa.
— Não, moleque, eu tava brisando mesmo... acho que não vi nada não. Acho que foi coisa da minha cabeça... sei lá, vi alguém parecido e confundi — passei meu braço pelos ombros dele e o mantive colado. — Vamo' voltar.
[...]
— Você nunca viajou de avião, né? — perguntei pro moleque na fila de embarque.
— Não — ele forçou um sorriso, todo duro.
— Relaxa, é tranquilo. Daqui até lá é umas duas horas.
— A gente vai ter que descer pra pegar outro avião? — ele parecia aterrorizado com a possibilidade. — Eu sei que tem um negócio que é assim...
— Escala? Não, é voo direto. Descer só pra ir pro resort mesmo.
A cabeça tão tensa que ele mal conseguiu assentir.
A cadeira dele era a da janela, o que já me fez querer descer o braço no inútil do Ademir, porque eu tinha repetido umas mil vezes pra ele reservar o assento do moleque ao lado do meu, mas o cuzão fez foi reservar pro Adriano — e de última hora, ainda por cima — sentar do meu lado.
Como na parte executiva do avião, os assentos na janela eram isolados, o moleque ficou em pânico de ter que seguir o voo inteiro sozinho e com a vista lá fora pra atormentar.
Não que o Adriano tivesse escolha em simplesmente bater o pé e não querer trocar, porque eu era capaz de jogar ele do avião ali mesmo, então, ele trocou de lugar numa boa.
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Declínio
Misteri / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
