Capítulo Cento e Dezoito

1.4K 109 58
                                        

Tinha uma multidão da porra na minha frente, mas quis nem saber, fui empurrando todo mundo, quase caí, mas consegui sair do mar de gente, dando com o cruzamento que antecedia o pancadão. O bagulho — agora ressaltado pela minha cabeça turva — me levou a pensar naquelas cenas de desenho onde o personagem se vê diante de dois caminhos paralelos, sem saber por qual deles seguir.

Não via mais sinal nenhum dos dois.

— Quer me matar do coração, Alexandre! — o moleque me virou pelo braço, irritado, enquanto ofegava. — Por que você saiu correndo assim? Quem foi que você viu?

— A irmã do Carcará.

— A Gabriela?

— Esse é o nome dela?

— É — o moleque olhou pelas duas ruas que se encontravam e fez um bico. — Tá, você viu ela, mas e daí? Ela te chamou?

— Não... o Micha tava com ela. Tava correndo atrás dela.

— E quem é Micha?

— É... é um desafeto do irmão dela. Puta que pariu... o cara é um lixo, se ele tava correndo atrás dela assim...

A expressão tranquila na cara do moleque se desfez e ele deu um passo na minha direção, como se quisesse a minha proteção.

— Não fala desse jeito que você me assusta. Você acha que esse cara quer matar ela?

— Eu não sei.

— Mas... mas tem certeza que eram eles mesmo que você viu? — o moleque tentou focalizar meus olhos.

Parei.

Parei, mas minha cabeça continuou girando e me senti capaz de cair pra trás, tamanho o torpor da bebida que mareava dentro de mim.

— É... talvez, eu teja só chapando mesmo — falei.

— Mas eu fiquei preocupado... — ele voltou a olhar em direção as duas ruas e pareceu estar mais sóbrio. — Depois da explosão lá... Deus me livre de acontecer mais alguma coisa.

— Não, moleque, eu tava brisando mesmo... acho que não vi nada não. Acho que foi coisa da minha cabeça... sei lá, vi alguém parecido e confundi — passei meu braço pelos ombros dele e o mantive colado. — Vamo' voltar.

[...]

— Você nunca viajou de avião, né? — perguntei pro moleque na fila de embarque.

— Não — ele forçou um sorriso, todo duro.

— Relaxa, é tranquilo. Daqui até lá é umas duas horas.

— A gente vai ter que descer pra pegar outro avião? — ele parecia aterrorizado com a possibilidade. — Eu sei que tem um negócio que é assim...

— Escala? Não, é voo direto. Descer só pra ir pro resort mesmo.

A cabeça tão tensa que ele mal conseguiu assentir.

A cadeira dele era a da janela, o que já me fez querer descer o braço no inútil do Ademir, porque eu tinha repetido umas mil vezes pra ele reservar o assento do moleque ao lado do meu, mas o cuzão fez foi reservar pro Adriano — e de última hora, ainda por cima — sentar do meu lado.

Como na parte executiva do avião, os assentos na janela eram isolados, o moleque ficou em pânico de ter que seguir o voo inteiro sozinho e com a vista lá fora pra atormentar.

Não que o Adriano tivesse escolha em simplesmente bater o pé e não querer trocar, porque eu era capaz de jogar ele do avião ali mesmo, então, ele trocou de lugar numa boa.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora