Capítulo Quatorze

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Rasteja dentro da sua mente

Te puxa para o fundo do poço

Te entrega o mais doce pecado

Duke Dumont – Nightcrawler


— O que? — ele gritou, confuso. — Que Lucas, caralho?

— O Lucas... que outro podia ser?

— Você tá falando do...

— Que fugiu naquele dia e tentou passar a perna em mim — completei por ele. Para aquilo, minha mente estava estranhamente clara.

Subitamente, ele se virou com tudo, assustado, na direção da pista.

— Onde?!

— Faz um tempinho. Aqui mesmo.

— Mas hoje?

— Não. Foi num dia que eu vim aqui com o Capuava... o filho-da-puta tava me olhando e me reconheceu.

Robson apertou os olhos e limpou uns resquícios de pó sobre a barba. A música seguinte que entrou era mais agitada que a anterior, mas tinha algo de emocional nela; ou era o que a minha cabeça queria sentir no momento.

— Você falou com ele? — quis saber Robson bebendo de um copo que foi deixado no balcão.

— Porra, cara. Esse copo era meu! — reclamou um sujeito baixinho que estava acompanhado de uma loira um palmo mais alta. Boyzinho de merda, eu pensei, sorrindo, bebendo do meu copo. Até a voz do viado era de boyzinho; aquela voz de fresco que não é, necessariamente, gay. Gay... gay, repeti na minha cabeça; pra mim, eu dizia aquilo de maneira forçada. Gay. Que viadagem da porra falar isso: "gay". E ri comigo mesmo da ideia.

— Que miséria da porra, irmão! — exclamou Robson abrindo os braços, se pondo diante dos dois. O boyzinho ficou meio tenso e a mina fingiu que não tinha nada a ver e não o conhecia. Eu comecei a rir mais. — Foi só um gole.

— Mesmo, mesmo assim. Vai sair bebendo dos outros?

— O mano aí tá certo, negão — falei. — Vai saber onde ele colocou a boca.

— Mas é chorão pra caralho — se irritou Robson. — Paga aí essa porra pra ele, grandão.

— Oxi. Paga você, maluco. Que porra eu tenho a ver com isso?

— Deixa isso pra lá — deu pra escutar a mina falando no ouvido dele.

Tava estampado na cara de bunda do sujeito que ele queria mesmo deixar aquilo pra lá, mas com uma cavala daquele tamanho do lado, ele não podia demonstrar ser menos homem do que já demonstrava.

— Não. O cara não pode beber dos outros assim e ficar sem pagar — eu quis rir, mas consegui me controlar.

— Então, vamo' resolver essa porra agora — por causa do rastro de pó que eu ainda sentia e das últimas doses, minha voz saiu mais grossa e profunda do que já era. Até bebi mais um pouco pra lavar a secura que arranhava minha garganta. Me levantei e passei pelo Robson, indo até o boyzinho. Ele deu uns dois passos apressados pra trás e quase tropeçou num dos bancos encostados ao balcão. — Que foi, maluco? Tá em choque?

Ele não respondeu.

— Não quer resolver essa porra? Então...

Sem surpresa nenhuma, a mina tomou a frente falando com educação:

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora