Capítulo Quarenta e Nove

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O cão quando finalmente abrem o portão pra ele.

Alguns realmente saem no veneno pra matar, como eu mesmo já tinha presenciado em outras situações — e isso deixando a metáfora de lado. — Mas outros, não. Aparentemente, para outras pessoas, era muito mais fácil alimentar o ódio do que colocá-lo em prática, o que eu nunca entendi bem, sendo sincero. E tava na cara que a Cátia se encaixava nisso.

Mas, não sei, mano...

Foi sim ali que eu o vi o brilho da raiva esmorecer nos olhos dela, mas ainda não tinha morrido.

A grande questão era se eu estava, de fato, interessado em ver o que ela tinha pra mostrar.

— Vai, porra! — reforcei. — Não tava fazendo o inferno aqui pra ir lá? Agora que eu tô abrindo o caminho, não quer ir mais? Tá com medo?

Feito uma criança, ela me olhou, como se pedisse ajuda pra mim.

— Medo do que? — decidi. — Não tem nenhuma surpresa te esperando lá em cima não, Cátia.

Ela suspirou e foi andando, enquanto assentia pra mim.

Apertando o passo, ela sumiu na virada do corredor me deixando sozinho com a recepcionista, agora boquiaberta.

— Minha nossa, seu Alexandre... — ela arquejou. — Por que o senhor foi fazer uma loucura dessas?

— Eu já tava cansado dessa palhaçada.

— Mas o quê que vai acontecer lá em cima agora? — a menina estava em pânico, o que me fez soltar uma risada fraca.

— Provavelmente nada — disse. — Esse pessoal aí não é que nem você e eu não. A Cátia deve ir lá em cima, ver o que tiver de ver, falar alguma coisa dramática e ir embora arrasada. O infeliz do Ademir deve descer correndo atrás dela pedindo desculpas e uma semana depois, a Cátia vai passar aqui, por segurança, e te cumprimentar como se nada tivesse acontecido.

— Isso se eu tiver aqui, seu Alexandre — ela olhou para o corredor, com a mão no rosto. — Quando o seu Ademir descobrir que eu deixei ela subir, minha nossa senhora... eu não quero ver. Não quero mesmo... e eu não posso ser mandada embora agora, o tanto de coisa que eu parcelei e...

— Calma, mulher — a interrompi. — Ninguém vai te mandar embora aqui não. Fica tranquila. Depois desse circo todo que ele armou aqui, ele não tem nem que abrir a boca pra nada. Qualquer coisa, é só vir falar comigo.

Indo pro acesso que levava à expedição lá do outro lado, eu já tava acendendo um cigarro, quando ela correu até mim, falando:

— Ai, seu Alexandre, sem querer causar mais do que já causei, mas... eu, eu acho que é melhor o senhor ficar de olho. Ficar de olho neles... não que o seu Ademir seja um homem agressivo, longe disso. Mas se a mulher dele botar tudo pra fora e tentar avançar na outra, só com eles três lá em cima... essas coisas, a gente não controla, seu Alexandre. Quando sobe a cabeça e todo mundo fora de si, Deus que proteja, mas eu não confio não.

Olhei para o corredor e parei.

Ela não estava errada.

A Cátia, realmente estava em ponto de me surpreender, mas o Ademir estava longe disso...

Mas é melhor não arriscar.

— Tá, eu vou lá ver.

Chegando no corredor que levava a sala do Ademir, já dava pra ouvir os gritos.

Uns gritos eram esperados, sim... mas eu não esperava ver aquela Cátia lá dentro.

— Você não merece respeito de ninguém, seu miserável! DE NINGUÉM! — ela esgoelou ao ponto de esticar a cabeça pra voz sair mais alto. Ela chorava, gritava, andava e por vezes, até parecia que ia avançar em cima dele às dentadas. — Você é um lixo!

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora