Acho que já tinha se passado umas duas horas, cara, mas o sol ainda se fazia presente através da janela atrás da mesa do Kalil que batia o dedo impacientemente contra a mesa.
Eu estava pra falar, quando o Russo quebrou a agonia, entrando na sala com tudo.
— E aí? — perguntou Kalil, acelerado.
— Nada — Russo respondeu, frustrado, com as mãos na cintura. — A Suzana falou que o filho-da-puta não dá sinal de vida desde hoje cedo, mas tenho certeza que é tudo mentira dela. De qualquer jeito, eu deixei dois caras lá de butuca pro caso de ele aparecer.
Kalil apenas consentiu, pensativo, e voltou a se recostar na cadeira.
Tesoura que também estava conosco na sala, comentou:
— E o Café? Como é que ele fica nessa história?
— Do jeito que tem que ficar — exclamou Kalil, impaciente. — Ele vai ser comunicado oficialmente como todo mundo e só. Eu não vou botar esse problema em discussão... de novo, não. Ia ser apenas suspensão, mas o Josué passou dos limites, Tesoura. Sobre isso, não tem mais nada a discutir.
— Seguindo o bagulho de forma racional, realmente não tem mais nada a discutir sobre isso, mas que o Café vai falar alguma coisa, disso não tenha dúvida.
— Que fale — Kalil ergueu os ombros, virando a cabeça pra janela.
— O Capuava pode ter feito toda essa lambança de forma impulsiva, como muitas coisas que o malandro faz na vida dele mesmo, mas ele não é retardado quando se trata do pescoço dele — Tesoura foi falando. — Quantas vezes tu não deu uma comida de rabo nele, recentemente mesmo, no começo da confusão com o Alemão e ele sempre botou o rabo entre as pernas e nunca mais tocou no assunto? Agora, depois do último acerto lá no galpão ele resolveu que ia ser diferente? Nunca que ele teria ido até esse extremo sem uma promessa de salvo conduto.
Russo suspirou, olhando para o chão, bastante desconfortável.
Porra, eu tava até surpreso que eu era a pessoa mais tranquila na sala com a merda de um assunto daqueles em pauta.
— E é por isso que quando eu perguntei como que o Café iria ficar nessa história, estava me referindo apenas aos seus planos sobre ele e não sobre contar pra ele da decisão, o que eu tenho plena certeza de que, a essa altura, o Café já saiba palavra por palavra do que aconteceu lá em Parelheiros — acrescentou Tesoura, olhando Kalil de canto. Por alguns instantes, eles ficaram calados, quase como se estivessem conversando por telepatia. Dava pra ver, claro feito água, na cara do Tesoura que ele tinha mais pra falar; que ele queria e precisava falar, mas havia um receio do caralho por ali. Entretanto, ele tomou coragem e foi completando: — Eu até me arriscaria a dizer...
— É melhor que não arrisque — Kalil o cortou na hora.
E Tesoura lançou um olhar pra mim tão rápido que eu senti que ele tinha pensado que eu não havia reparado, o que me obrigou a dizer, apoiando as mãos nos braços da cadeira, já pra me levantar:
— Se vocês quiserem, eu saio.
— Besteira, Alemão — Kalil estalou a língua. — Você é manjado o suficiente pra saber do que ele tá falando.
E o pior que eu sabia.
Mas ainda assim, eu não tinha conseguido assimilar o bagulho. Já tinha mais de dez anos que tretas assim não aconteciam dentro do Comando; era foda pensar que uma racha do tipo estivesse se criando logo entre o Kalil e o Café — e beleza que os dois nunca foram irmãos de peito; pra falar a verdade, até havia uma distância do caralho entre o que cada um dos dois representava, mas era justamente isso que havia garantido harmonia na Final nesses últimos anos: o Kalil era a imagem perfeita do que o Comando queria representar dos últimos dez anos pra cá: pragmático, frio, meticuloso e calmo; já o Café era a imagem do Comando em suas origens, lá nos anos noventa: rebelde, inflexível, impiedoso e radical. E, embora esse conceito que se criou nos anos noventa estivesse sendo deixado de lado aos poucos, eu sabia que a maior parte dos irmãos — o próprio Kalil incluso — não pretendiam extinguir essa ideia por completo. Afinal, os tempos eram outros, mas o Comando ainda era o crime e o crime não progride com flores e conversa e era ali que eu sabia residir o temor do Kalil em ter o Café como um possível opositor.
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Declínio
Misterio / Suspenso"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
