Gelei.
Por um curto momento, me senti completamente sóbrio.
Me forcei a me tranquilizar. Instintivamente, levei minha mão ao bolso em busca de algum pino mesmo sabendo que não haveria nenhum por ali. Eu não tinha que precisar de nada externo pra poder tomar o controle da situação como sempre fiz.
— Foi você que matou ele — falei, alto demais. — Por que você fez isso, cara? Ele era meu funcionário. Trabalhador. Tinha família e...
Ele estalou a língua tão alto que um gato que andava na calçada do outro lado da rua disparou com tudo entre as folhas de um arbusto. Eu nunca tinha visto gato andando pela rua ali na Vila Mariana...
— Não é hora nem lugar pra esse tipo de joguinho, colega — me interrompeu, vindo até mim, se debruçando sobre a janela do carro como se fosse dele. — Ainda mais do jeito que você tá. Com o rabo cheio de pinga e droga.
Porra, mano... que merda tá acontecendo?
— Mas pode ficar tranquilo que a hora boa para tratarmos disso vai chegar, quando você tiver em condições de manter uma conversa normal.
Eu queria gritar, esgoelar, pegar a peça no porta-luvas e picar a bala na cara daquele playboyzinho de merda, porque agora que o via melhor, era exatamente o que ele era. Um mimado do caralho que praticamente foi posto pelo pai ou pela mãe no lugar em que estava agora.
— Agora pode ir para a sua casa descansar — prosseguiu, voltando a se afastar do carro. — Eu sei que você precisa. E não se preocupa porque eu sei onde te encontrar.
E foi caminhando tranquilamente para a viatura.
Antes de entrar no carro, gritou pra mim:
— E toma cuidado, viu. Não queremos que nada impeça nossa futura conversa.
Acho que fiquei ali parado por uns cinco minutos, sem brincadeira, depois que ele foi embora. O gato até tinha voltado, acho que julgando que tudo tava numa boa depois que o arrombado deu no pé.
Meio oco, liguei o carro de novo e em um minuto, eu tava em casa.
Já nem me lembro mais quando nem como eu dormi, mas acordei no dia seguinte igualmente perturbado.
[...]
Por duas vezes, eu pensei em comentar sobre o encontro com o tal policial federal com o Ademir, mas sempre que a história chegava na ponta da minha língua, eu desistia.
Não que eu desconfiasse dele nesse assunto, mas o Ademir não era o sujeito mais ligeiro do mundo, ainda mais no que dizia respeito a essa questão e até que eu descobrisse mais sobre o ocorrido, acho que era melhor guardar para mim.
Ainda não tinha me descido inteiramente bem tudo o que aconteceu desde que o Ademir nos arrastou pra essa treta do edital, mas eu já estava acostumado com a ideia de me envolver novamente com o Kalil e dançar um pouco nos esquemas do governo. Para mim, era um triângulo perfeito... e também era tudo aquilo que eu estava preparado para enfrentar.
Um quarto lado não estava incluso nisso.
Eu odiava me sentir perdido.
Pedi pra Maira não deixar ninguém encher meu saco a não ser que fosse questão de vida ou morte e fiquei moscando na minha sala, com a televisão ligada, pensando na bendita noite.
Será que o Kalil sabe disso?
Até porque não fazia o menor sentido ele ter se envolvido com os federais e depois mandar um deles fazer aquela palhaçada comigo que eu ainda não compreendi exatamente o que tinha sido; um aviso? Um aviso para que eu tomasse cuidado? Mas o que eu estava fazendo que pudesse prejudicar o Kalil ou o Lisboa?
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Declínio
Misterio / Suspenso"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
