Capítulo Cento e Vinte e Quatro

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Eu não quero ver o fim do mundo sem você

Swedish House Mafia – Heaven Takes You Home


Penúltimo capítulo da segunda parte


— Com valor mínimo fixado? O quê que é isso? — a piranha velha murmurou pro advogado público.

— Quer dizer que se a senhora recorrer e os desembargadores de segunda instância decidirem a favor dele novamente, o que eu vou te avisar que é o mais provável de acontecer, o valor da indenização não pode diminuir, só aumentar — ele respondeu em voz baixa.

— O que? — ela fechou a cara, ultrajada. — Você tá querendo me dizer que eu vou ter que pagar esse infeliz? Quinze salários-mínimos? E eu sei lá quanto de dinheiro que é isso. Depois de tudo que esse povo fez pra minha família, eu ainda vou ter que pagar por dizer a verdade?!

— Dona Mirtes, aqui não é o lugar certo pra isso — o advogado tentou advertir.

— Se aqui não é, onde diabo é, então? Hã? — ela se exaltou. — O juiz perguntou pra você se tinha alguma coisa a mais pra dizer e você não falou nada! Mas eu não tô surpresa não, ah, não tô mesmo. Advogado do estado é tudo uma porcaria, faz as coisas com uma má vontade. Tudo que é público não presta! Tudo que é de graça... de graça não, né? Que a gente paga imposto pra ainda ter que passar por isso e...

— Algum problema, senhora? — o juiz interveio, cansado.

— Sim, seu juiz, tem um problema aqui sim — ela se adiantou sobre a mesa. — O caso é que não é justo eu ter que pagar todo esse dinheiro pra... pra esse aí. Não é justo, seu juiz! Eu... desde que o meu filho, que eles...

— Cuidado com o que a senhora vai dizer... — o advogado a alertou em voz baixa.

Ela me encarou e não fugi do olhar. Fiquei ali, paradão, dando a sugestão de que eu queria rir, só pra ver se a piranha velha descambava de uma vez e terminava de cavar a própria cova. Não seria uma maravilha aquela audiência terminar com o juiz decretando a prisão dela? Rapaz, chega eu sentia aquele impulso de euforia percorrer pela minha pele só da possibilidade de ela ser presa existir.

— Desde que... desde que o meu filho sumiu — ela proferiu a palavra como se fosse uma praga, olhando diretamente pra mim —, desde que ele sumiu, que essa gente aí, que eles... eles fazem de tudo pra prejudicar a minha família, seu juiz. Esse furdunço aqui... isso aqui é só pra eles poderem me atacar, seu juiz, só pra poder ferrar ainda mais comigo. É tudo isso que esse homem quer: me prejudicar. Só olhar pra ele, juiz... olha pra ele, que o senhor vai ver que eu não tô mentindo.

Esfreguei a cara, me controlando pra não rir.

— A senhora vai no meio de uma delegacia, com um monte de gente e me acusa de ter matado o seu filho, de que pela minha aparência, eu só podia ser um bandido e sou eu que estou tentando te prejudicar? — questionei.

— Você é um lixo! Cínico, miserável, eu...

— Já chega, senhora — o juiz exclamou. — Se a senhora não está de acordo com a minha decisão, pode recorrer dela, eu já disse. Agora, se a senhora continuar com isso, eu vou ser obrigado a mandar prendê-la por desobediência.

Ela era a única de pé e assim que se virou pro juiz, eu tive quase certeza de que ela iria falar alguma merda pra ele, mas a desgraçada se conteve a tempo e apenas o encarou, parecia que ia chorar. Pena não ter chorado.

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