Capítulo Noventa e Nove

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Me vi de volta com meus doze, treze anos, chegando em casa depois das onze, escondido, na ponta do pé, o cu na mão da minha mãe acordar e ver a hora que eu tinha chegado. Não era hora de achar graça, mas só de lembrar daquilo, eu era capaz de sentir a ardência da cinta estralando contra o meu lombo, e isso me fez sorrir.

Tal como era naquela época, me deparei com uma casa completamente escura.

Não era muito comum que acontecesse, mas dessa vez, eu realmente preferia encontrar o moleque dormindo e deixar as perguntas somente pra amanhã.

Assim como foi no andar de baixo, em cima, tava tudo escuro também.

Fui abrindo a porta do quarto lentamente, só para encontrar a cama perfeitamente arrumada, sem sequer um amassado sobre o lençol.

Meu medo de pegar o moleque boladão comigo deu lugar à confusão, que logo deu lugar ao medo de volta, mas ao medo de que alguma coisa ruim tivesse acontecido.

Desesperado, abri as portas de todos os quartos e nada.

— Gabriel? Tá aí? — fui perguntando, descendo os degraus da escada de dois em dois.

Nem na sala, nem na cozinha, na sala de jantar, no lavabo, na lavanderia, em lugar nenhum.

Corri a porta de vidro com tudo, tendo alguma claridade das luzes da piscina e, abençoadamente, eu o encontrei.

Ele tava sentado no gramado, as costas apoiadas na fundação que suportava a área coberta, do outro lado da piscina, onde ficava a churrasqueira, os armários e os freezers. A luz irregular que vinha de dentro da água lançava sobre o rosto cabisbaixo dele um brilho ainda mais triste.

Meu peito ficou dormente ao ponto de querer formigar, só de vê-lo daquele jeito.

Fui até ele e me agachei ao seu lado, passando a mão em seu cabelo.

— Que foi que aconteceu, amor?

— Nada — ele forçou um sorriso, me encarando. — Eu só quis ficar aqui fora um pouco. E como é que foi lá com a família do Raul? Deu tudo certo?

— Deu sim. Foi um pouco trabalhoso, mas o pessoal conseguiu se acertar.

— Família é complicada, né? — ele continuava a sorrir. Não era algo que ele costumava fazer, daí eu é que fiquei sem saber o que fazer.

— É.

Ele tornou a assentir e continuou me encarando, sorrindo.

— Tem certeza que não aconteceu nada? — questionei, passando a mão no rosto dele.

— Não teve briga nenhuma com a família do Raul, né?

Tive que realinhar meus pensamentos na hora.

Não foi fácil.

Não zoado como eu tava.

Eu me sentia... não era exatamente esgotado, mas eu me sentia como se a minha capacidade mental de absorver e assimilar a realidade à minha volta tivesse estourado o limite e eu já não conseguia medir o peso das informações que eu recebia com clareza, especialmente quando essas informações traziam mais problemas consigo.

— Por que você tá falando isso? — foi tudo o que consegui pensar.

— Você não respondeu minha pergunta.

A luz da piscina não trazia claridade suficiente e me apoiei nisso, porque eu não me lembrava de alguma vez já ter visto aquela dureza toda no rosto dele.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora