Capítulo Sessenta e Nove

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Eu...

Não...

Não...

Não.

Eu sabia que tinha feito muita merda naquela vida e que eu iria pagar por tudo isso. É claro que iria, as coisas funcionam assim. Mas aquilo? Não. Aquilo não. Havia um limite até onde as coisas podiam... não sei o termo, mas não funcionar, dar errado, foder com a vida de alguém. Aquilo ali? Aquilo não era coincidência e eu sabia que tanto eu quanto o moleque não procuramos por aquilo. Aquilo não poderia acontecer.

Irmão, aquilo não era nem uma possibilidade. Aquilo, não.

— Mentira... — entoei, confuso, sem olhar pro Robson. — Tudo isso aí é mentira. Você quer meter o louco pra mim com isso, caralho? Você tá tirando uma com a minha cara, porra?!

— Mentir pra quê, Grandão? — ele abriu os braços. — Tenho tudo aqui comigo, o negócio virou notícia na época e como é que não iria virar depois do que a gente fez lá? Até na época, a gente acompanhou as investigações, vai dizer que não lembra não? Eu tenho a notícia num site aqui, salva no celular. Pode ver, ó: — ele mostrou o celular pra mim, mas eu não quis ver: — Clarice, o nome dela. Até o nome dos filhos e do marido ficaram na notícia, ó: Leonardo de dezessete e Gabriel de dez. Olha, porra.

— Não quero, filho-da-puta!

— Claro que não quer — ele tornou a rir. — Já sabia disso né, seu pilantra do caralho? Assim que eu troquei ideia com esse moleque e ele acabou me soltando a história da mãe dele, me veio isso na hora e foi só dar uma pesquisada que eu encontrei tudo. Tá na cara que essa bomba estourou agora e você tá aí, virado um desgraçado, pra tentar dar a volta nesse moleque, né? Eu não tenho os contato que você tem, mas tenho certeza que o Raul lá já deve ter descolado pra você que a polícia reabriu essa investigação ou alguma merda assim. O moleque nem me falou nada, mas se pá, é até ele que tá no corre pra ver isso, não é?

O ignorando, dei uma volta ao redor de mim mesmo, me sentindo fora de mim, me sentindo como se eu não fosse eu mesmo, mano. Que porra era aquela?

— Não, não é não. Nem precisa me confirmar — ele continuou. — Eu andei seguindo ele todos esses dias e vi o suficiente pra ter certeza de que ele não tá atrás dessa fita.

Apontando o dedo na cara dele, eu falei:

— É pra você ficar longe dele, entendeu? O que você tiver pra resolver comigo, você vai vir resolver comigo, como sempre foi, você tá me entendendo, seu filho de uma puta? Eu não quero você nem a um quilômetro de distância dele que se não você tá fodido, Negão. Vai deixar o moleque em paz e isso eu não tô pedindo não. Eu tô dizendo que isso vai acontecer.

— Porra, Grandão — ele deu risada, abrindo os braços. — Quer meter esse migué pra cima de mim mesmo, querendo me fazer acreditar que você gosta dele de verdade? Eu te conheço desde que a gente é moleque, caralho. Esse chapéu, em mim, você não dá, irmão. E, pelo jeito, não é só em mim que você tá tentando dar um migué, mas em você mesmo também. Você realmente tá acreditando que vai conseguir impedir esse moleque de prestar queixa contra você caso a bomba estoure por causa dessa sua palhaçada aí? Porque tá comendo o cu dele?

Agarrando ele pela blusa, eu o trouxe pra perto de mim e fui falando:

— Cala a sua boca, seu lixo do caralho. Quer resolver tua treta comigo? Agora mesmo, agora não envolve o moleque, filho-da-puta, e fala desse jeito dele de novo pra você ver se eu não te mato aqui agora — ele me olhou, tenso, mas vi um ar de descrédito nos olhos dele. — Tá duvidando? Tô nem aí pra essas porra aqui em volta não, seu cuzão. Te dou fim nesse buraco aqui mesmo e jogo tua carcaça no córrego, fácil que nem jogar lixo. Quer tentar a sorte? — impaciente, o empurrei de volta com tudo pra trás. — Fala dele desse jeito de novo. Fala!

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora