Então, ele se afastou do meu toque com tudo.
Eu não tinha tocado nele, apenas abaixado um pouco a gola da polo que ele usava pra ver melhor a marca. Nem deu tempo, mas tinha sido o suficiente para constatar ali que o bagulho era muito maior do que parecia e se duvidar, descia até o peitoral dele.
— Oi? Não entendi — não entendeu, mas foi rápido em tapar a marca com a mão.
Mesmo assim, eu repeti calmamente:
— Que negócio é esse aí no seu pescoço?
— Ah! Tá falando da mancha?
— Do hematoma, você quis dizer — o corrigi. Eu me afeiçoava ao moleque sim, mas eu não tinha muita paciência pro jogo do "deixa pra lá" que ele fazia.
— Nossa, que horror. Não é tudo isso não...
— Ah não?
— Não. Eu só sou um desastre com as coisas. Falei isso pra você — mano, aquele moleque nunca poderia ser ator. — Eu tava em casa e acabei...
— Ah, tô ligado. Outra cadeira, né? — o interrompi bruscamente.
Ele não negou, apenas evitou me olhar nos olhos.
— Pouca ideia pra historinha furada — falei. — O que que tá acontecendo, moleque?
— Nada...
— Como nada? Já é a segunda vez que eu te vejo marcado aí e você vem com essas ideia de louco de que caiu de cadeira — eu tinha me esquecido completamente daquela conversa com ele no Botega, mas de algum jeito, a lembrança me saltou vívida e eu lembrava das palavras como se as tivéssemos trocado agora a pouco, ali mesmo. — Porra, moleque. Solta essa história direito aí.
— Não tem história nenhuma, Alexandre. Eu já falei que...
— Foi esses cuzão do seu trampo que fizeram alguma merda com você? — ignorei as mentiras dele. — Pode falar, filho.
Ele continuava balançando a cabeça.
— Alguma treta na faculdade, na rua, na sua casa? — insisti. — Porque, meu garoto, essa história de cadeira... puta que pariu, eu invento uma mentira melhor até dormindo.
Ele abaixou a cabeça.
— Eu sei que você não é de brigar — falei e ele me olhou... com vergonha, mas de si mesmo, o que me deixou mal pra caralho. — O que foi? Tá sentindo vergonha? Não é motivo pra ter vergonha não, moleque. Você não tá errado em não querer nem gostar de brigar — foi o melhor que eu consegui pensar no momento porque... porque eu simplesmente não concordava com aquilo. Meu, nunca tive essa de abaixar a cabeça pra filho-da-puta nenhum. Eu podia morrer, mas tava pra nascer o cuzão do caralho que iria levar uma comigo ou me menosprezar de graça. E por muito tempo e até aquele atual momento, talvez, eu não olhava com bons olhos as pessoas como o Gabriel, que não tinha peito pra bater de frente com Deus e o mundo. Mas, parando pra analisar as coisas de uma forma fria, ele tava certo. Eu não era um animal que precisava resolver tudo na mão e o certo era tentar levar as coisas na conversa, sempre que possível, mas não era fácil entender a cabeça de alguém que escuta os outros pisarem, humilharem e até baterem como eu sabia que estavam fazendo com ele sem ter uma reação à altura. Não entrava bem na minha cabeça, mas cada um era cada um e... sei lá, cara, mas acho que ele não era menos homem ou cuzão demais por ser assim.
Talvez, até fosse mais fácil resolver as coisas do jeito que eu fazia do que aguentar tudo calado como ele.
Ele ia chorar, mano.
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Declínio
Misteri / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
