Capítulo Vinte e Quatro

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— Raparam fora mesmo?! — gritou Kalil ao celular, enquanto o maluco cortava pela marginal feito louco com nós quatro dentro do carro. — Então, pega essa porra e some daí. Isso, caralho. Pega tudo... pega também. Quem for dos nossos e ficou pra trás, pega e enfia na vã que eu deixei aí e leva pro galpão... morreu algum deles? Se morreu e ficou pra trás, pega o corpo e traz também que eu quero saber quem deles tava envolvido nessa história.

O maluco tava indo a quase cem por hora.

Russo digitava alguma coisa no celular.

O meu estava tocando, mas eu não mexi um só músculo para poder atender. Sentia mais do que nunca o toque frio da minha ponto quarenta na minha coxa.

— Desacelera essa porra, loucão! — ordenou Kalil, irritado. Aquele era um tipo de emoção que não lhe caía bem. Todos conheciam o Kalil de expressões neutras, voz linear e ar pacato. Era estranho demais vê-lo exaltado daquela maneira. — Depois do que aconteceu lá, quer nos foder chamando a atenção desse jeito?

— Foi mal — o cara pediu, diminuindo o ritmo. Acho que eu o conhecia, só não me lembrava exatamente de onde.

— Eu não falei, porra?! — esgoelou Kalil se virando com tudo no banco do passageiro, para olhar pro Russo que estava sentado ao meu lado, no banco de trás. — Eu falei pra você que tinha alguém querendo nos foder. Querendo me foder!

— Você acha que isso teve a ver com...?

Kalil apenas encarou o Russo por mais alguns segundos em silêncio e se endireitou no banco com tudo, passando a mão pelo queixo.

Ele tava lá, era só o que eu conseguia pensar.

Esse filho-da-puta pode tá metendo o louco em alguma parte dessa história toda, mas ele não tá pra brincadeira.

Tudo foi tão rápido que eu não conseguia me lembrar direito se o tinha visto usando algum distintivo ou algo relacionado a polícia civil e agora eu tava na dúvida se ele era federal mesmo, civil ou nenhum dos dois — alguma coisa tem que ser. Pra tá ali fazendo o que ele tava fazendo, alguma coisa esse bosta é.

— Seja quem for, eu vou descobrir — entoou Kalil, agora mais centrado; aquele era o Kalil de verdade. — Eu vou descobrir.

Virei minha cabeça para a janela e tentei me distrair com o trânsito e o ar azulado do fim de tarde. De alguma maneira, o barulho dos carros, o rastro meio roseado que as nuvens faziam no céu ao entorno do sol que estava se pondo me tranquilizou.

Na hora, eu me perguntava o porquê de não falar simplesmente o nome do cuzão para o Kalil e o que ele tinha me dito na minha sala uns dias atrás. O frenesi do momento já estava se dissipando e as ideias se reagrupavam novamente na minha cabeça...

A partir dali algumas coisas ficaram bem claras pra mim.

Fosse o que fosse, esse maluco não tinha apenas um blefe nas mãos. E tudo bem que ficou na cara com o desenrolar da situação que ele não sabia exatamente o que iria encontrar lá na Ceagesp, mas ele sabia que havia alguma coisa... coisa essa que podia e iria me foder e foi preparado com aquele tipo de reforço para lidar com qualquer eventualidade.

Eu não descartava a hipótese de que era o que ele pretendia encontrar lá que seria a arma que ele iria usar contra mim. Mas eu também não duvidava que aquilo podia ser apenas uma maneira de ele demonstrar para mim o que ele estava disposto a fazer e do tipo de recurso que ele tinha em mãos para usar.

E aquilo não foi coisa de maluco. O cara me apareceu primeiro como um federal, agora brota com viatura e uma porrada de civis juntos e ok... havia sim a possibilidade de eles não serem policiais civis de verdade. Mas quem diabos se arrisca a entrar na Ceagesp à luz do dia, com todas aquelas viaturas e dispostos a trocar tiros na frente de todos como eles fizeram, não sendo policiais de verdade?

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora