Bota a cabeça no lugar, caralho, repeti a mim mesmo, apertando o volante com força.
Aparentemente, eles ainda não tinham reparado que eu tava chegando.
Ele falou pro moleque que era meu amigo... se eu chegar já quebrando a cara dele, o moleque vai ficar cismado pra caralho comigo. Então, faz que nem ele... na frieza...
Ia ser do caralho, ia sim, mas eu conseguia.
Assim que encostei o carro de frente com a garagem, decidi sair primeiro. Haveria tempo pra guardar o carro depois.
— Olha ele aí — o filho-da-puta abriu um sorrisão ao me ver, vindo na minha direção. Como é que podia ser tão fingido, o arrombado? Sem deixar a expressão oscilar um só segundo que fosse, ele estendeu a mão pra mim, me forçando a cumprimentá-lo pra manter as aparências. — E aí, Alemão, beleza?
— Tranquilo — botei força na mão, pra esmagar os dedos do cuzão, mas ele se manteve firme e continuou apertando minha mão numa boa. Até que foi daora ver nos cantos dos olhos dele a dor se fazendo presente, mas sendo sufocada.
— Tava falando aqui pro Gabriel que a gente se desencontrou ontem — falou, dando um jeito de se livrar do meu aperto e se aproximando do moleque de novo. — Ele chegou a comentar com você? Eu levei ele lá, mas aí ele ficou zoado e já que eu tinha levado ele, o certo era trazer ele de volta também, né? Mas aí quando eu voltei pro inferninho lá, você nem tava mais. Foi pra onde?
— Voltei pra casa.
— Entendi.
Olhei de relance pro moleque e vi que ele tava desconfortável pra caralho.
O que esse filho-da-puta falou pra ele?
— Mas devia ter tomado um bagulho pro estômago e ter voltado pra lá, Gabriel — ele continuou, cutucando o braço do moleque. — Que eu vou falar pra você, ali os caras fizeram uma curadoria com aquelas minas que... rapaz, era só filé, moleque.
Gabriel forçou um sorriso.
— Que porra de conversa é essa, maluco? — questionei.
— E não era não? Vixi, cada novinha que eu vi ali... até as que eram mais velhas, pô. Tinha uma ali que devia ter uns quarenta, que só por Deus. Ô mulher gostosa da porra... não pode perder uma oportunidade dessas não, Gabriel — e voltou a cutucar o braço do moleque.
— Qual foi a fita, jão? Tá tirando uma com a minha cara, filho-da-puta?! Tá falando essas porra pro moleque por que? — eu sei que tinha falado a mim mesmo que não ia me permitir ser arrastado no joguinho dele, mas aquele desgraçado tava querendo montar em cima de mim e tava pra nascer o filho-da-puta que ia conseguir isso. No impulso mesmo, dei um empurrão nele que por muito pouco não tropeçou na calçada.
— Calma, Alexandre — Gabriel pediu, entrando no meio.
— Não tem calma não, moleque — ergui meu braço e avancei na direção do arrombado. — Qual que é o seu objetivo aqui, meu truta? Querendo meter de envolvido, nem tava lá no bagulho que você foi até brecado de entrar e aí chega aqui falando que viu isso, que viu aquilo. Viu minha pica, seu zé ruela do caralho. E ainda tem a cara de pau de falar pro moleque que ele não podia perder a oportunidade.
— Desculpa aí, Alemão. Se desencontramos ontem, mas eu nem tava ligado que não era pra comentar sobre...
— Jão, jão... — fui repetindo até ele parar de falar. — Corta o papo furado, parceiro. Que porra que você quer aqui?
— Eu só vim trocar ideia com você mesmo, justamente por não ter te encontrado ontem. Daí, eu tava conversando numa boa com o Gabriel aqui, falando como você é um cara daora, pô. Porque, queria eu ter um tio assim que nem você na minha época de moleque, que me levasse pra esses rolê pra poder comer mulher assim que eu ia...
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
