Capítulo Cento e Trinta e Um

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Mas tão rápido assim? — Kalil perguntou do outro lado da linha.

— Eu falei pra você, o cara não tá perdendo tempo — saindo do carro, com o celular ainda no ouvido, fiz meu malabarismo pra acionar o controle da garagem, pra fechá-la. — E escuta mais essa, meu bom: eu até acredito que o Russo já tenha cantado essa letra pra você, mas pra mim, aviso nunca é demais, e o bagulho lá com o Café é o seguinte: tem gente grande com ele, fica esperto. No dia que eu fui lá trocar ideia com ele e hoje mesmo, o Galo Cego tava lá com ele, já todo integrado ao esquema e eu tô começando a pensar que não para por aí... — deixei o resto pairar no ar, esperando que ele pescasse a ideia.

Ele suspirou do outro lado da linha.

Você acha que tem gente da Final além do Ticão? — ele mandou na lata.

— Possibilidades existem, né? — enquanto eu caminhava na direção da porta, senti minha barriga gelar, algo que soava como ansiedade. Mas ansioso pelo que? Por uma casa vazia?

'Cê é louco, parecia que meu cérebro era de cachorro, tá ligado? Pique aqueles filmes em que o dono morre ou vai embora pra sempre e o cachorro fica sentado na frente da porta, dia após dia, ansioso, na esperança de que a qualquer momento, a porra da porta vai abrir e o dono vai entrar, alegre.

Caralho... como é que podia meu corpo ainda nutrir — fisicamente — a esperança de encontrar meu moleque lá dentro? Eu tava era ficando maluco, só podia.

— Mas isso vou deixar na tua conta que eu já tenho quase certeza que 'cê tá dando teus pulo pra se certificar disso aí — comentei, abrindo a porta e deixando que a realidade me descesse a porrada, como sempre; a casa vazia; tão ou mais vazia de quando eu a deixei.

Ele ficou em silêncio por alguns instantes, tempo suficiente pra eu chegar até a sala.

Tô... tô dando uma vigiada na rapaziada aqui... — que tom amargo da porra, mas decidi nem comentar nada. — Me entristece, tá ligado, Alemão... não exatamente entristecer, mas me incomoda pra caralho a ideia de que tando aonde a gente tá, eu tenho que me preocupar com esse tipo de coisa; de desconfiar dos meus próprios parceiros.

— A parte boa é que você fica reduzido a uma lista menor de possibilidades, né não? — resmunguei. — O da Caboré, o Neno e o Marlinhos... se tem alguém da Final nessa merda, só um deles e, particularmente, eu já tenho meu palpite.

Que eu suponho ser o mesmo que o meu — ele falou, suspirando.

Sim, eu também achava que era assim.

Mas não vamo' sofrer por antecipação nessa merda não, porque o bagulho já aconteceu e o que importa agora é lidar com essa porra do jeito que tá — ele acrescentou na sequência. — Ele te falou mais alguma coisa sobre detalhes? Sei lá.

— O último detalhe que faltava pra ele cravar a data do bagulho era acertar com os funcionários lá de Tremembé e com a rapaziada dos arredores, e já conseguiu isso.

E quem tá no comando dessa parte que eu ainda não entendi? O Josué?

Daí foi a minha vez de suspirar.

— O Pezão.

Ele não respondeu de cara e, sei lá, pra mim foi pior do que se ele tivesse falado alguma coisa, por mais fodido que estivesse.

Eu tinha falado com esse filho-da-puta do caralho esses dias — ele grunhiu. — Eu não acredito numa porra dessas não.

— Usa isso como vantagem, então — sugeri. — Se pra ele, você ainda não tá ciente que ele tá ajudando o Café, já é algo que 'cê pode usar.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora