— Mas tão rápido assim? — Kalil perguntou do outro lado da linha.
— Eu falei pra você, o cara não tá perdendo tempo — saindo do carro, com o celular ainda no ouvido, fiz meu malabarismo pra acionar o controle da garagem, pra fechá-la. — E escuta mais essa, meu bom: eu até acredito que o Russo já tenha cantado essa letra pra você, mas pra mim, aviso nunca é demais, e o bagulho lá com o Café é o seguinte: tem gente grande com ele, fica esperto. No dia que eu fui lá trocar ideia com ele e hoje mesmo, o Galo Cego tava lá com ele, já todo integrado ao esquema e eu tô começando a pensar que não para por aí... — deixei o resto pairar no ar, esperando que ele pescasse a ideia.
Ele suspirou do outro lado da linha.
— Você acha que tem gente da Final além do Ticão? — ele mandou na lata.
— Possibilidades existem, né? — enquanto eu caminhava na direção da porta, senti minha barriga gelar, algo que soava como ansiedade. Mas ansioso pelo que? Por uma casa vazia?
'Cê é louco, parecia que meu cérebro era de cachorro, tá ligado? Pique aqueles filmes em que o dono morre ou vai embora pra sempre e o cachorro fica sentado na frente da porta, dia após dia, ansioso, na esperança de que a qualquer momento, a porra da porta vai abrir e o dono vai entrar, alegre.
Caralho... como é que podia meu corpo ainda nutrir — fisicamente — a esperança de encontrar meu moleque lá dentro? Eu tava era ficando maluco, só podia.
— Mas isso vou deixar na tua conta que eu já tenho quase certeza que 'cê tá dando teus pulo pra se certificar disso aí — comentei, abrindo a porta e deixando que a realidade me descesse a porrada, como sempre; a casa vazia; tão ou mais vazia de quando eu a deixei.
Ele ficou em silêncio por alguns instantes, tempo suficiente pra eu chegar até a sala.
— Tô... tô dando uma vigiada na rapaziada aqui... — que tom amargo da porra, mas decidi nem comentar nada. — Me entristece, tá ligado, Alemão... não exatamente entristecer, mas me incomoda pra caralho a ideia de que tando aonde a gente tá, eu tenho que me preocupar com esse tipo de coisa; de desconfiar dos meus próprios parceiros.
— A parte boa é que você fica reduzido a uma lista menor de possibilidades, né não? — resmunguei. — O da Caboré, o Neno e o Marlinhos... se tem alguém da Final nessa merda, só um deles e, particularmente, eu já tenho meu palpite.
— Que eu suponho ser o mesmo que o meu — ele falou, suspirando.
Sim, eu também achava que era assim.
— Mas não vamo' sofrer por antecipação nessa merda não, porque o bagulho já aconteceu e o que importa agora é lidar com essa porra do jeito que tá — ele acrescentou na sequência. — Ele te falou mais alguma coisa sobre detalhes? Sei lá.
— O último detalhe que faltava pra ele cravar a data do bagulho era acertar com os funcionários lá de Tremembé e com a rapaziada dos arredores, e já conseguiu isso.
— E quem tá no comando dessa parte que eu ainda não entendi? O Josué?
Daí foi a minha vez de suspirar.
— O Pezão.
Ele não respondeu de cara e, sei lá, pra mim foi pior do que se ele tivesse falado alguma coisa, por mais fodido que estivesse.
— Eu tinha falado com esse filho-da-puta do caralho esses dias — ele grunhiu. — Eu não acredito numa porra dessas não.
— Usa isso como vantagem, então — sugeri. — Se pra ele, você ainda não tá ciente que ele tá ajudando o Café, já é algo que 'cê pode usar.
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Declínio
Mistério / Suspense"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
