— Senhor, nós já estamos fechando... — disse a balconista assim que pisei o pé dentro da lanchonete.
Não havia ninguém lá dentro, além dela e de outro rapaz que tava limpando uma das mesas.
Mas, por alguma razão, foi ela me observar melhor que sua expressão mudou e ela disse, baixando a cabeça:
— Ah, moço... pode ir lá nos fundos. Eles estão lá dentro.
Apenas consenti com a cabeça e fui.
Aquela era uma dessas tantas lanchonetes americanas que tinham se espalhado pela cidade nos últimos anos por meio de franquias. Pelo tanto que eu sabia, muitas delas davam mais prejuízo do que lucro, mas haviam muitas razões pra tanta gente aqui no Brasil se arriscar a investir tanto pra se tornar um franqueado. O da Caboré que era dono dessa, um dos tantos.
Nos fundos, onde eu supus ser o escritório, me deparei com dois malucos que eram quase tão altos como eu, ladeando a porta, com os braços cruzados e se esforçando pra caralho pra meter banca de mau. Achei engraçado.
Apenas acenei com a cabeça e me liberaram o caminho.
Lá dentro, uma grande mesa de vidro com Kalil, da Caboré, o Marlinhos e até o Neno, sentados ao redor dela. O Russo também estava sentado, mas tava meio que afastado dos outros quatro. Vi o Pedrinho e até o porra do Carcará tava ali dentro, só que em pé. Testemunhas, soube comigo, incomodado.
— O papai chegou — brincou o da Caboré, me puxando pelo braço pra mais perto da mesa. — Senta aí, Alemão.
Antes de me sentar, tratei de apertar a mão de todo mundo e me deixei cair na cadeira que o da Caboré tinha puxado, com um longo suspiro, pra que todos eles soubessem logo que não era do meu interesse continuar ali.
— Eu espero que ter encontrado todo mundo aqui não signifique que vocês já tavam tudo junto decidindo se iam me chamar ou não pra participar — comentei.
— Quê isso, Alemão — entoou Kalil, cansado. — Não tinha nem como te deixar fora desse assunto. A gente já tava conversando com o Café, mas até encerramos, esperando você chegar.
— Beleza, então.
— Liga aí pra ele, Marlinhos — ele pediu, com um aceno.
Assim que discou o número, ele botou o celular no centro da mesa.
Mal chamou duas vezes e o Café atendeu:
— Finalmente, porra. Vocês tão ligado que eu sou ansioso, caralho. Não pode me deixar nessa tensão não. E o Alemão, já chegou?
— Cheguei, Café. Boa pra nóis.
— Boa.
Arranhando a garganta, Kalil tomou a palavra:
— Vamo' partir pro resumo logo, porque... porque, na boa, pra mim, esse assunto já se estendeu muito mais do que devia.
— Com certeza — anuiu o da Caboré.
— Eu imagino que... não, rapaziada, eu vou dizer que tô muito feliz que vocês se preocuparam em organizar tudo isso aqui direitinho, pra decidir o rumo do irmão e se lembraram de mim e do Ticão... que tá aqui comigo, fala aí, porra, nem deu sinal de vida pros cara.
— Salve, rapa — a voz engrossada pelo cigarro do Ticão pareceu ainda mais distorcida pela ligação.
— Salve — o restante ecoou.
— Então, voltando aqui o que eu tava falando, é... eu tava dizendo que achei muito bom, pra decidir o destino do irmão, vocês contarem com a minha, quer dizer, a nossa posição, do Ticão e eu, sobre o que fazer, porque o boato que corria; o que chegou no meu ouvido é que vocês já tinham decidido entre vocês aí o que fazer.
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
