Acho que passei tempo demais encarando os policiais e a piranha velha.
Sei que não era relevante, mas a primeira coisa que pensei foi no porquê do giroflex da viatura estar ligado. Eu não tinha uma relação muito próxima com os meus vizinhos, mas fiquei pensando em que tipo de mensagem aquilo passaria sobre mim.
— Eu... eu quero ver a ordem judicial — estendi a mão para o policial que tinha falado primeiro. Eu ainda não tinha processado o momento direito.
Prontamente, ele botou o papel na minha mão.
Tirando os selos com firma reconhecida e todas as firulas, não era lá um documento extenso.
— Tá meio tarde pra esse tipo de coisa, não tá não? — questionei, enquanto corria um olhar rápido pelo papel.
— A ordem foi emitida tem pouco tempo — o policial explicou. — Como esclarecido aí, fomos primeiro na casa da mãe, mas não havia ninguém lá, depois fomos para a casa dos avós maternos, mas o avô da criança disse que ele estaria aqui. Só estamos acompanhando a avó paterna, porque ela solicitou esse reforço... — dando uma pausa, ele inclinou a cabeça para trás, envergonhado e prosseguiu: — alegando ter sido agredida pela avó, o avô e o irmão da mãe da criança num último encontro.
— E vai apanhar de novo agora, essa vagabunda sem vergonha — exclamou minha mãe que só não conseguiu sair em disparada, porque eu a detive em tempo. — Me solta, Alexandre!
— Para de loucura, mãe! — gritei, puxando ela pra trás com tudo. — Quer piorar a situação que já tá ruim? Puta que pariu!
— Eu avisei vocês! — a desgraçada apontou o dedo na direção da minha mãe, mais do que satisfeita com o espetáculo. — Essa gente é agressiva, sabe lá como tão tratando meu menino.
— Seu menino uma ova, sua vagabunda! — cuspiu minha mãe, me forçando a segurá-la de novo pra não acontecer nenhuma besteira. — Que a única ligação que você tinha com ele era pelo infeliz do seu filho que largou ele e a mulher pra cair no mundo!
— Cala a sua boca, sua ordinária! — toda a pose de vítima se dissolveu num instante. Acho que era melhor assim. — Meu filho não caiu no mundo coisa nenhuma, foram vocês que deram fim nele. Vocês!
— Vamos todos manter a calma — pediu o policial. — Sabemos que é um momento delicado.
— Cuidado com o que diz — falei pra ela. — Vocês, policiais, ouviram, não ouviram? O filho dela está desaparecido e até o momento, pelo menos, segundo as últimas informações que a própria polícia tem nos passado, não há nenhum avanço nas investigações. Então, não vamos ficar aqui ouvindo ela fazer esse tipo de acusação.
— Ele está certo, senhora — o outro policial que estava mais perto dela falou. — Não é por isso que estamos aqui. Estamos aqui para resolver um problema e não criar outro.
— Então, senhor, podemos entrar pra fazer cumprir a ordem judicial? — o primeiro policial perguntou.
— Não — respondi, seco. — Aqui nessa decisão menciona apenas a casa da minha irmã.
— Mas, senhor, o melhor é...
— Sim, eu vou trazer meu sobrinho, mas vocês vão esperar aqui fora — e sem dar tempo pra ele dizer qualquer coisa, fechei o portão, voltando pra dentro da casa.
— Você vai levar o Gabriel mesmo pra eles? — minha mãe me perguntou na sala.
— Claro que vou, mãe. A Helena já tá presa e depois de tudo envolvendo o desaparecimento do Ismael, eu não vou deixar juntar mais problema do que já tem.
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Declínio
Bí ẩn / Giật gân"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
