Eu olhei pra ela de novo. Mas olhar, olhar mesmo, sabe. Buscar ali aquela Mariana de... do que? Quatorze, quinze anos atrás? Aquele riso que ela tinha nos olhos ainda estava lá, mas todo o resto me parecia um pouco diferente. E mesmo que fosse tudo igual, eu sabia agora que a enxergava daquela maneira, que isso não significaria nada.
Peguei o maço que eu tinha no bolso e acendi um cigarro, me virando pra não soltar a fumaça em cima dela.
— Você não vai me falar nada? — ela resolveu perguntar, o rosto apreensivo.
— Eu não quero ser grosseiro, mas eu acho que eu não tenho nada pra falar sobre isso — respondi, olhando pro irmão dela e pro meu pai que estavam praticamente um do lado do outro, mas com o moleque sem olhar para ele como se estivesse em qualquer outro lugar que não fosse ali.
Não era essa resposta que ela esperava, dava pra ver na cara dela.
— Eu sei que é estranho eu aparecer aqui depois de tantos anos e falar uma coisa dessas — ela começou a dizer, olhando pro chão. — Nem deve fazer sentido, mas eu também não... eu também achei que isso tinha ficado no passado e por muito tempo, eu me esforcei em deixar essas lembranças pra trás e pensei que tinha conseguido, Alexandre. Mas daí eu te vi lá e tudo veio que nem uma porrada de uma vez só na minha cabeça.
Traguei profundamente e tentei resumir tudo aquilo que estava acontecendo. Não foi fácil. Principalmente porque eu precisava ser sutil e eu nunca soube como ser.
— Eu acho que não tem como ser mais claro do que isso — falei. Mano, eu mal tinha botado o cigarro na boca e já tava quase na metade de tanto que eu puxava. — Então, eu também tenho que ser.
Ela assentiu.
— Você é linda, Mariana. Era e continua sendo. Se eu falar o contrário, eu tô mentindo. Mas tudo aquilo que aconteceu enquanto a gente tava junto, eu deixei pra trás, e agora eu não quero nada com você e sei que nem no futuro, eu vou querer.
— Tudo isso porque eu tô grávida de outro?
Eu ri, aquela risada enfraquecida, mas ainda assim uma risada.
— Você me conhece, Mariana. Eu não mudei tanto a esse ponto. Se eu realmente tivesse o mínimo interesse em tentar alguma coisa com você, eu não ia ligar pra esse tipo de besteira.
— Não, mas eu sei que você...
— Eu não quero, Mariana. De verdade, eu não quero nada — a interrompi. — Como eu disse, você é muito bonita e eu tenho um respeito da porra por você, por tudo aquilo que a gente viveu. A gente até podia continuar conversando, que nem amigo, como você quis fazer depois que a gente terminou, mas como você ainda tem esse sentimento aí, por mim, se for isso mesmo e você não tiver confusa com...
— Eu não tô confusa com nada, Alexandre.
— Ok, então. Se você realmente sente alguma coisa por mim, eu...
— Você acha que eu taria aqui me prestando a esse papel de palhaça pra você se eu não sentisse nada?
— Então, justamente por isso, eu acho melhor eu me afastar pra não piorar a situação. Eu sei que eu não vou voltar com você e pelo seu bem, é melhor a gente manter distância um do outro.
Ela virou o rosto no exato momento em que uma lágrima escorreu.
Eu não queria que mais nada atingisse minha cabeça, mas uma sensação imunda de remorso me envolveu.
— E... pelo seu filho também — continuei. — Pelo seu filho, pra você não sofrer nenhum tipo de desgosto, acho que é o certo a se fazer.
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
