Capítulo Quarenta e Dois

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— Meu Deus do Céu — ele arquejou, horrorizado. — Mo-morreu? Que conversa é essa? O homem tava, ele tava esses dias que, que ele foi na igreja com a gente. Tava normal, bem, saudável. Que brincadeira besta é essa?

— Não é brincadeira nenhuma, pai.

Ele apertou os olhos, virou a cabeça para um lado e para o outro, confuso, como se tivesse se esquecido de onde estava e se agachou para pegar a caixa que tinha caído, a botou em cima da mesa e continuou me olhando, numa cara que dizia tudo e nada ao mesmo tempo.

— Ele morreu — ressaltei.

— E como é que vocês não avisam a gente de um negócio desses, Alexandre?! Manda aquela moça trazer o Gabriel pra cá e a gente aqui sem saber de nada!

— Pai, calma.

— Que calma o que, Alexandre! — ele exclamou, ficando vermelho, o que nem sempre costumava significar muito, já que o rosto do meu pai se avermelhava por qualquer coisa. — Um, um negócio desses e... e, meu Deus, mas como é que acontece uma coisa assim do nada e... e a sua irmã? O menino... o Gabriel também não sabe, né? Pelo jeito que aquela moça trouxe ele aqui e o jeito como ele tava calmo. Ele teria nos falado, claro que teria. O Ismael mo... isso aconteceu ontem, não foi? Vocês mandaram trazer ele pra cá pra ele não ver a Helena. Ela ficou... cadê ela? Onde ela tá agora?

— Calma, pai — me exaltei, segurando ele pelo braço. — Uma coisa de cada vez, se não o senhor vai infartar desse jeito.

— Não tem como ter calma quando...

— Me escuta — o interrompi. — Sim, eu pedi pra amiga da Helena trazer o Gabriel pra cá pra que ele não visse o jeito que a mãe dele tava e... — suspirei, tentando centralizar minha cabeça —, e outras coisas que tinham lá e ele não podia ver de jeito nenhum. Na verdade, o menino não pode nem sonhar em saber o que aconteceu.

— Que merda é essa que você tá me falando?! — ele se livrou da minha mão, sacudindo o braço com tudo. — Como é que você quer esconder um negócio desses do menino? Que é o filho. Ele pode ser novo ainda, mas não é idiota, Alexandre, ele...

— O Ismael não morreu de doença, acidente ou do nada, como o senhor tá pensando.

Ele me olhou ainda mais confuso.

Porra, como contar aquilo pro meu pai que sempre teve minha irmã como tudo na vida dele? E o foda não era apenas saber que ela tinha sujado as mãos até aquele ponto, mas sim saber o que a tinha levado a isso. Se eu, que só era o irmão, não tava me aguentando de raiva em saber que tudo aquilo tinha acontecido debaixo do meu nariz e eu não tinha feito nada, como é que ele ficaria, sendo o pai?

Claro e direto. Não tinha outro jeito.

— O Ismael foi morto, pai — contei. Ele abriu a boca, mas não falou nada. Então, prossegui, o surpreendendo ainda mais: — a Helena matou ele.

Por alguns segundos, ele se limitou a me encarar, com a expressão congelada no rosto; a boca meio aberta, os olhos sem vida e então ele se virou para a mesa, apoiou as mãos sobre ela e baixou a cabeça.

— Por que você só tá me contando isso agora? Aconteceu... isso aconteceu ontem, não foi? Por que só agora veio me falar?

— Porque eu tava ocupado me livrando do corpo dele.

Ele cobriu o rosto com uma mão e suspirou tão forte que pensei que ele fosse desmaiar.

Me adiantei para apará-lo caso ele passasse mal, mas graças a Deus, não aconteceu. A respiração dele começou a sair de forma trêmula e eu fui passando a mão nas costas dele, sei lá, não me vinha nada na cabeça que eu pudesse usar para tentar tranquilizá-lo.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora