— Ele ainda tá batendo na senhora, não tá? — perguntei pra ela, me apoiando na barricada de pedra que ela tinha construído alguns anos atrás, pra cercar a laje da casa que ela pretendia nunca mais ver.
Ela me olhou tentando se impor calma, mas dava pra ver como a agonia vibrava dentro dela, forte demais para ser contida.
— Alexandre, eu consigo resolver meus problemas sozinha, por conta própria. Sem ajuda de ninguém. Eu consigo. Eu sempre consegui — declarou ela, num tom que mancava de tanta hesitação. — Fui eu que cuidei da sua avó até ela morrer, eu vim pra São Paulo sozinha, com as minhas próprias pernas. Porque, quando eu pedi ajuda pro teu pai, ele não me ajudou. Eu sei. Eu sei que ele tinha você e seu irmão pra cuidar, a Helena nem tinha nascido ainda. Eu não tô querendo reclamar disso, mas querendo dizer que eu posso cuidar das minhas coisas sem ter qualquer outro vindo me socorrer...
— Mas...?
— Mas... mas tem coisas que eu, que todo mundo — ela se atrapalhou toda. Era impressão minha ou eu estava vendo o prenúncio de lágrimas nos olhos claros da minha tia? — que todo mundo não consegue, às vezes, fazer. Eu vou pedir pra um dentista arrancar meu dente; vou pedir pra uma cabelereira cortar o meu cabelo; vou pedir pra um pedreiro derrubar essa casa velha... se eu quiser.
— E aí pedir pra um assassino dar fim no seu marido — completei por ela, porque eu vi em seus olhos que ela não conseguiria falar isso por conta própria. — E acredito que esse alguém seja eu. Sei lá, tia, eu devo ser mais ou menos isso, né?
— Não, Alexandre... — ela esfregou a cabeça, cansada. — Eu não tô querendo dizer que você, meu filho... que você é um. Não, não. Eu sempre gostei tanto e ainda gosto de você. Sempre me mantive aberta pra te receber, pra entender o seu lado. Você sabe disso.
Era verdade.
Minha tia Marta sempre foi a única entre os parentes que eu tinha algum contato a não me virar as costas — meu tio Paulo também nunca havia me julgado como os outros, mas não era a mesma proximidade. — Mesmo quando meus próprios pais fizeram isso. Acho que porque ela sempre foi meio excluída entre os irmãos, como eu era. Ainda que a coitada não tivesse feito nada pra merecer isso.
Não que eu soubesse, pelo menos.
— É só que... é só que eu não acho justo isso. Não é justo! — ela prosseguiu, se aproximando mais de mim. — Só eu sei o que eu passei na mão desse traste. Daí, eu ganho todo esse dinheiro na Mega Sena que realmente vai mudar minha vida. Eu não quero ser arrogante, mas eu sinto que esse é o momento em que eu finalmente vou deixar tudo de ruim que eu passei por essa vida pra trás, pra daí permitir que esse infeliz aproveite esse momento comigo? Eu não consigo, Alexandre.
Suspirei, jogando a bituca do cigarro lá na rua.
— Eu quero o que é melhor pra você, tia. Eu quero seu bem. Sempre quis isso — comecei a falar, olhando bem no fundo dos olhos dela. — Só que o que a senhora quer... eu admito que nunca fui muito claro com as merdas nas quais eu me envolvo, mas matar o Gilson assim.
Ela abaixou a cabeça, a expressão como a de alguém que não dorme há semanas. Quando tornou a me encarar, me senti como um completo estranho para ela. Era vergonha que eu via em seus olhos.
— Nossa, meu menino, eu... eu peço perdão por toda essa besteirada que eu te falei. Minha nossa. Esqueça isso, por favor. Eu não quis pensar... eu não quis dizer que você é um...
— Tia, eu posso dar fim no Gilson sim — a interrompi, enquanto acendia outro cigarro calmamente. — Posso dar meu jeito de fazer parecer que foi uma dessas coisas que acontecem por acaso quase todos os dias.
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Declínio
Mistério / Suspense"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
