— Não, Rodrigo, eu não acredito nisso — esfreguei minha cara, já sentindo a ira esquentar no peito. — Eu não quero acreditar que você fez uma porra dessas, jão. Você tava aqui de boa, caralho, levando uma vida tranquilo, suavão... pra quê caralho você tinha que me sair daqui pra ir lá causar com o moleque, seu filho-da-puta?!
— Sair daqui? O que...? Não, mano, não, não. Peraí — ele se desesperou, dando um passo pra trás. — Eu não falei nada demais pro Gabriel não, mano. Eu troquei ideia com ele numa boa, tô te falando.
— Tá me falando, é? — dei um passo na direção dele.
— Juro por Deus, mano, eu não fui brigar nem causar com ele não. Pra quê que eu ia fazer isso?
— É o que eu quero saber.
— Mas eu não fiz nem falei nada de ruim pra ele! — ele exclamou, injuriado.
— Então, que caralho você queria com ele? Você não tinha me falado que iria no shopping com essa mina aí?
— Foi, mano! Foi que nem eu tava te falando: a gente ia no shopping, só que aí a gente decidiu ficar lá no bar, porque tava bom... eu nem fazia ideia que o Gabriel tava lá. Foi no acidente.
— E não importa se encontrou ele no bar, no shopping, na rua, no caralho que for... viu o moleque? No máximo um "oi; como é que você tá" e já era.
— Você não tá me escutando, mano — ele exclamou, frustrado. — Eu não falei nada demais pra ele! Eu não zoei, não tirei sarro, não xinguei. Eu nunca falei nada de mal pro Gabriel.
— Nunca? — debochei.
— Não, beleza... daquelas vezes, eu sei que ele ouviu as besteiras que eu disse e até peço perdão por isso. Se você quiser, eu vou lá e me desculpo pessoalmente com ele, mas eu nunca disse isso diretamente pra ele. Eu disse coisa que não devia pra você e em algumas vezes, ele tava por perto ouvindo. Mas eu nunca cheguei no Gabriel pra atacar ele assim do nada. Eu nunca tive nada contra o moleque, eu nem conhecia ele direito pra ter. E eu até já tinha trombado com ele antes, numa vez aí que eu tava até brigado com você, e não destratei ele; cumprimentei, perguntei como ele tava...
Eu me lembrava.
Havia sido perto da explosão no churrasco do Café e o Gabriel me garantiu que o Rodrigo não havia tratado ele mal, mas eu não confiava, porque eu conhecia os dois. Apesar de ser meu irmão, Rodrigo era folgado, cínico e tava com aquele papo de que tinha vergonha de mim por eu estar com o moleque. E apesar de amar o Gabriel e ter total confiança nele, eu sabia que o moleque tinha aquele instinto de querer que todos se reconciliassem no final; eu acreditava muito que ele tivesse mentido, dizendo que meu irmão o tinha tratado bem, só pra não criar mais conflito entre ele e eu.
— E foi a mesma fita dessa vez — ele insistiu. — Foi assim, ó: eu cheguei lá, ele já tava no bar. Ele tava com duas minas lá, que eu acho que era prima ou amiga dele, daí, eu fui, cumprimentei elas, cumprimentei ele, perguntei como ele tava e... eu tô ligado que eu não tenho que me meter na situação de vocês dois aí, mas eu...
— Mas você o que, caralho?
— Não, mano, eu não... eu não fui bancar o cupido, dando a entender pra ele que você que tinha me mandado lá pra falar bem de você pra ele. Eu não fiz isso. Mas eu sei, mano, eu percebo que você tá meio pra baixo por causa dele. Esses dias mesmo aí, eu vi você lá no seu quarto passando a mão numa blusa que eu descolei que não era sua por causa do tamanho; só podia ser dele...
— Tá enrolando demais, jão — o interrompi. — Conta essa porra direito.
— Então, eu... eu tava dizendo que eu tô ligado que você gosta dele e nem sei qual foi a fita que aconteceu aí pra vocês dois não tá mais junto, mas nem perguntei isso pra ele também; por que foi que vocês terminaram, eu não sou louco — ele prosseguiu. — O que eu falei pra ele, foi que eu tinha percebido que você gostava muito dele e, eu até repeti isso várias vezes: que você nem fazia ideia que eu tava ali conversando com ele, pra não passar a impressão errada pro moleque, né? Que eu tava fazendo telefone sem fio. E aí eu disse que eu percebia que você gostava muito dele, que apesar de qualquer coisa, você é um cara daora, você não é um cara ruim e que eu vi no olho dele que ele também gosta de você e, mesmo sem saber o que tinha acontecido, pedi pra ele repensar, que quando a gente tá junto, a gente se desentende mesmo, mas pra te dar uma chance, pra vocês ver melhor e...
VOCÊ ESTÁ LENDO
Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
