Eu tinha bebido?
Claro, mano. Eu tava na porra de um bar. Como é que eu não ia beber?
Eu também nem tava me justificando, caralho. Um soco só que eu tinha dado naquele lixo era muito pouco, então, eu só tinha na minha cabeça a ideia fixa de continuar pra acertar mais e mais.
Só que — aí sim eu podia botar na conta o álcool que tava enturvando minha cabeça — tudo começou a parecer meio irreal. Eu sei que tinha encaixado mais um murro e o vacilão não aguentou e foi ao chão logo na sequência e eu já tava metendo umas bicuda, enquanto ouvia o moleque gritar meu nome e me agarrando, tentando me puxar pra trás, mas logo deixou de ser apenas ele e, de repente, toda uma multidão estava a minha volta, obstruindo a visão que eu tinha dele no chão e me gritando palavras e mais palavras que eu já nem sei se era capaz de ouvir.
— Me solta, caralho! — eu berrei, sacudindo meus ombros pra me livrar da força que me puxava pra trás.
Um dos caras que tavam ali em volta, que eu já nem me lembrava quem era tava ajudando o filho-da-puta a se levantar.
— Mete o pé, doidão — era o Tatu que dizia, olhando pra cara do irmão do Gabriel como se quisesse se certificar de que tava tudo certo. — Sai fora, sai fora.
Tropicando, ele foi saindo sem olhar pra trás.
A confusão tinha terminado, mas todos os caras que se aproximaram pra apartar ainda pareciam meio sobressaltados, olhando e ciscando de um lado pro outro, inquietos, como se a confusão fosse voltar a qualquer momento.
— Tá bem, irmão? — era o Raul, do meu lado, apertando meu ombro. Só pude reconhecer pela voz, porque eu não conseguia deixar de olhar na direção da entrada, vendo o arrombado se afastar lá na rua. — Qual que foi a treta aí? Quem era esse loucão? Que foi que ele fez?
Que porra era aquela? Eu continuava com os olhos pregados no filho-da-puta se afastando do bar, mas tinha escutado o Raul; tinha assimilado o que ele tava falando, só que, por alguns instantes, eu só pude balançar minha cabeça em negativa, debilmente, mesmo que eu nem tivesse certeza se o que eu iria falar seria algo negativo... porra...
Instintivamente, virei minha cabeça pro lado e vi o moleque logo ali, a expressão... ele parecia alguém que tinha mijado na roupa no meio de uma multidão, nem era capaz de encarar qualquer um ali no rosto; cabisbaixo, eu podia ver a garganta dele trabalhando a tensão.
— Tá bem mesmo, Alemão? — Raul passou a mão nas minhas costas, inclinando a cabeça pra me olhar melhor. — Tá com a cara estranha. Tá me ouvindo?
— Tô bem, caralho — minha voz saiu como um sopro. — Tô bem — esfregando minha cara, suspirei, tentando trazer alguma razão pra cabeça. — Eu só... eu tô cansado, mano. Eu... eu vou pra casa.
— Tem certeza?
— Tenho, tenho... eu só preciso descansar um pouco, tá ligado? Deitar, relaxar um pouco a cabeça que eu... é só isso que eu preciso agora.
— Não, tá certo.
— Moleque... — chamei, dando um passo na direção dele e segurando seu ombro. Ele chega estremeceu, como se tivesse com a cabeça em outro lugar. — Vamo' pra casa?
Ele tentou forçar um sorriso, piscou rapidamente, mas... não chegou nem perto de passar a naturalidade que eu sei que ele pretendia.
— É... eu nem queria falar pra não te atrapalhar aqui, mas... mas eu quero ir pra casa mesmo — ele coçou a nuca, ainda insistindo naquele sorriso forçado. — Mas, não precisa se preocupar comigo, grandão. Se você quiser ficar, pra aproveitar com os seus amigos, pode ficar, numa boa, sem problema.
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Declínio
Misterio / Suspenso"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
