Capítulo Três

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Eu não estou bem, mas estou bem

Perdendo a cabeça, mas estou bem

Contanto que eu sempre continue perseguindo essa dopamina

Kungs – Dopamine


Não posso afirmar cegamente, mas tive sim a impressão de que o moleque se tocou de que eu percebi que ele era viado, pois ficou ainda mais envergonhado, o olhar tenso para qualquer outro lugar que não fosse Raul e eu.

— Então, eu posso deixar o planejamento lá na sua mesa? — me perguntou Maira que pareceu não perceber a vergonha do amigo.

— Deve, né — falei, tragando um pouco mais do cigarro.

— Obrigada, viu Alexandre — com um sorriso do tamanho do mundo, ela assentiu com a cabeça e se foi arrastando o moleque atrás de si.

— Gostosinha essa Maira — comentou Raul, com o cigarro na boca, sem tirar os olhos do rabo da garota. — Sério mesmo que 'cê achou que ele era namorado dela?

Ergui os ombros.

— Vou saber. Tenho tempo de ficar vigiando os funcionários não, Raul.

— Mas será que ela namora mesmo?

— Namora. Tá sempre falando do tal namorado pras meninas do RH, mostrando foto e os caralho a quatro — expliquei, sem me importar muito. — Só que eu nunca cheguei a ver...

— Tô nem vendo. Se esse trouxa moscar, empurro a rola nela — com um sorrisinho torto, ele jogou o toco do cigarro fora.

— Se liga, caralho. Você é velho. 'Cê acha mesmo que uma mina dessas vai te querer?

— Ih, maluco, qual foi? Tô tão velho assim não, rapaz. Quarenta anos só.

— A menina tem vinte e dois — reclamei. Não que eu ligasse com quem a Maira saísse, mas a presunção do arrombado me incomodou. Em grandes partes porque no começo, quando Maira entrou na transportadora, eu cheguei a fantasiar a ideia de comer ela na minha sala naqueles dias em que não aconteciam porra nenhuma. Eu não podia ser considerado o mestre do bom-senso, mas consegui botar na minha própria cabeça que não seria nada inteligente foder uma garota que trabalhasse pra mim daquela maneira.

Raul abriu os braços, fechando a cara.

— Quer dizer então que só o patrão aqui pode traçar as novinhas? — batendo nas minhas costas, ele debochou. — Pra mim, nada. Quem tem que se ligar aqui é você.

— Tô só te avisando, irmão. Quer tentar a sorte? Vai na fé. Ela não me parece muito o tipo de menina que curte cara mais velho. E bota mais velho nisso.

— Vai se foder, Alexandre. Tu só é quatro anos mais novo que eu.

Eu dei risada.

Nunca havia ligado pra idade, mas depois que passei dos trinta e cinco, comecei a me preocupar um pouco com os fios grisalhos que vez ou outra apareciam na minha cabeça e o tempo todo na barba. Estranhamente, provocar o Raul que era mais velho que eu com aquilo, animava meu humor que era uma beleza.

Me pareceu que o Raul tinha esquecido completamente o assunto do Capuava, o que me trouxe um baita alívio. Voltei ao bar e acabei por me desvencilhar dele por mais que eu quisesse continuar trocando ideia, tudo isso para não ter de voltar naquele assunto que acabou matando toda a vontade que eu tinha de "trabalhar" pelo resto do dia.

Decidi que ia gastar meu tempo em outro lugar...

Quando topei na saída do bar com o filho do Wagner que já tinha um sorriso enorme no rosto.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora