Ele chega tremeu quando me viu ali, parado perto dele.
— Que porra foi essa aí que você guardou no bolso? — exigi saber.
Ele balançou a cabeça enquanto a abaixava, tentando negar.
— Nada, não foi nada não.
— Não foi nada o caralho — retruquei, indo até ele. — Eu vi você guardando um bagulho aí. Quero saber que porra que é. Mostra. Anda, vai.
Relutante, ele findou por ceder e estendeu a mão pra mim, ainda cabisbaixo, revelando um prensado de maconha na palma da mão.
Fiquei surpreso.
— Eu ia jogar fora... — ele comentou, a voz baixa. — Só que aí, de última hora, eu mudei de ideia e achei melhor guardar pra... sei lá, pro caso de eu querer usar depois e não ter e aí... desculpa, Alexandre. Eu fiz merda, eu sei. Eu... eu vou embora, tá? Só tenho que te agradecer aí por ter me dado comida, por ter deixado eu dormir aqui... caraca, nunca tinha dormido tanto e tão bem na minha vida, obrigado mesmo, irmão, mas eu já te incomodei demais e... olha a hora... eu não quero atrapalhar você nem o Gabriel que deve tá dormindo agora, vou pegar minha roupa e... — ele botou o prensado de maconha na minha mão e tentou passar por mim pra ir embora, mas eu o detive, segurando seu braço.
— Que ir embora o que, porra — minha voz saiu suspirada. Tratei de botar o prensado de volta na mão dele e falei: — guarda isso aí. Mas juízo, moleque. É só maconha essa porra, mas tenta dar uma segurada... do jeito que você tá, é aí que começa.
— Do jeito que eu tô? — ele pareceu preocupado. — Eu ainda tô parecendo...?
— Eu não quis dizer isso — falei depressa. — É que eu tô vendo na tua cara que você ainda tá meio atormentado por tudo isso que você tem passado aí... eu sei, moleque, como que a cabeça do ser humano funciona... ainda mais no nosso caso. Então, relaxa. Não tô te botando pra fora nem quero que você vá embora, entendeu?
Ele confirmou com a cabeça.
— A gente vai fazer o seguinte agora: vamo' tomar café, depois eu vou te levar pro shopping pra comprar umas roupas pra você, porque... — e puxei a gola da camiseta que eu tinha arrumado pra ele, só ressaltando que o bagulho tava grande que só a porra nele. Não aguentei e dei risada. — Você tá magro, hein, moleque... 'cê é louco, porra, mas não tem a menor condição de você ficar usando as minhas roupas. Tá parecendo um bicho-pau.
Ele estalou a língua, olhando pro lado, envergonhado.
— Ah, para, mano...
— Eu tô falando sério, pô. Você tá muito acabado, moleque... e feio, porra. Você tá zoadão... olha essa barba toda falhada — passei a mão pelo rosto dele. — E logo você que sempre foi bonito pra caralho. Não, pô... você pode até ficar meio pá se deixar a barba crescer, mas magro do jeito que você tá, fica meio estranho. Precisa voltar ao normal.
— Eu nem gosto de usar barba... — ele confessou.
— Não, então, vai limpar a cara que eu vou fazer café pra gente... pra facilitar, até pensei em te levar comigo pra tomar café na padaria aqui perto, mas não dá não, pô. Pra te poupar e pra me poupar de passar vergonha, que é o mais importante, vamo' tomar café aqui e eu vou comprar as roupas pra você e você vai me esperar no estacionamento, porque eu não vou andar com você vestindo essa porra toda larga não, mas nem fodendo — e dei risada, o fazendo retorcer a boca de vergonha.
— Para de me zoar assim, Alexandre...
— Mas eu tô mentindo? — eu não tava conseguindo parar de rir. — Vai logo, porra... vai tirar essa merda aí da cara que eu vou fazer café pra gente.
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
