Fiquei sem graça?
Lógico que fiquei.
Mas não adiantava, mano. Eu sempre ficaria feliz por ver o meu moleque.
Involuntariamente, eu senti o sorriso se alargando no meu rosto e, como quem não quer nada, eu fui me aproximando dele que tava parado sobre a calçada, na frente do portão, com os braços cruzados.
— E aí, meu moleque, como é que você tá? — coloquei as mãos nos bolsos, porque eu não sabia como me comportar, que tiração.
Ele riu, abaixou a cabeça e a balançou, em negativa.
— Tô bem sim — respondeu, no entanto. — E você, tá bem?
— Tô melhor agora.
Ele tornou a rir, quase como se esperasse que eu falasse aquilo.
— Então, você comprou um carro pro seu irmão — ele comentou, um sorriso diferente no rosto. Senti que, ao contrário das outras vezes, ele não parecia estar de sobreaviso comigo. Fiquei mais tranquilo.
— É, comprei... que faz tempo que eu não dou nada pra ele e aí chegou o aniversário dele... — fui falando. — Mas você acha que eu não devia ter comprado?
— Não, quê isso? Que horror — ele riu. — Eu achei bom, porque depois daquele dia lá na festa com a esposa; quer dizer, ex-esposa dele, ele perdeu o carro e tava esse tempo todo pegando o do seu pai emprestado. Ele tava comentando comigo.
— Hum, então quer dizer que você tem falado com o Adriano?
— Não, na verdade, ele só comentou isso comigo quando foi lá na minha tia pra me convidar pro aniversário dele. Mas, fora isso, a gente não tem se falado não. E por falar nisso... foi você que pediu pra ele me chamar, não foi?
— Oxi, lógico que não, moleque — tentei me fazer de ofendido. — Ele te falou isso?
— Se você pediu pra ele, óbvio que ele não iria me contar, né, Alexandre?
— Não, mas eu não pedi isso pra ele não — afirmei, olhando fundo nos olhos dele. — Eu também fiquei sabendo da festa de última hora, quase que não consigo pegar o carro pra ele.
— De última hora? — ele estranhou. — Mas o Adriano me contou que foi você que pagou pela maior parte da festa.
Adriano, boca de sacola do caralho.
— É, mas na correria da Vargo, eu acabei me esquecendo... quase que não ia vir. Foi minha mãe que me lembrou.
Ele resmungou, desconfiado.
— Certo, então, eu... eu vou entrar, tá?
— É... — me adiantei pra perto dele. — Eu posso entrar com você também?
— É a casa dos seus pais, Alexandre — ele observou, querendo rir.
— Não, eu sei, mas é que... você entendeu o que eu quis dizer... tipo, tá ligado, a gente poder continuar conversando lá dentro.
— É que eu vou no banheiro agora.
— Não, beleza, vai lá. Eu...
— Não, pelo amor de Deus, não — ele disse, se segurando pra não rir. — Não vai me ficar na porta do banheiro esperando eu sair, com a sua família toda aqui, por tudo o que for mais sagrado nessa vida.
— Não, não. Pode deixar, moleque — cocei minha cabeça e deixei ele entrar.
Depois disso, fiquei meio desorientado e não consegui entrar. Fiquei ali parado, até que senti alguém pegar no meu braço.
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
