O para-brisa do carro já era meio escuro, de noite, então, eu não acreditava que fosse fácil me ver mesmo com a luz do poste que se erguia sobre a calçada, mas o filho-da-mãe abriu um sorriso do tamanho do mundo, vindo na minha direção enquanto eu encostava o carro de frente com a entrada da garagem.
Se fosse depender do lixo do Josué, eu entraria pra casa direto e nem me dignaria a falar com o sujeito, mas com o meu mano ali, a história era diferente.
— Quem é? — Gabriel se ajeitou sobre o banco, piscando os olhos com força. Tava com uma carinha de sono.
— Parceiro meu. Não vejo faz anos — contei, enquanto tirava o cinto.
Assim que saí do carro, Torquato estendeu a mão pra me cumprimentar, com o sorriso crescendo ainda mais enquanto dizia:
— Fala aí, bandido mau.
— Porra, irmão, "bandido mau"? — assim que apertei a mão dele, o pilantra me puxou pra um abraço forte, se demorando pra me largar.
— Com essa cara de alemão aí que não vale nada, não tem como chamar de bandido bom não, que tu tá ligado — segurando meu rosto, acho que pra me ver melhor, ele sorriu, me puxando pra outro abraço. — Barba grande da porra, Alemão.
— Gostou?
— Tá sinistro, hein, rapaz. Tu já tem a cara fechada, com essa barba aí, então... fala aí, Capuava, o cabra tá marcando presença, gostei.
— E você, meu irmão, como é que você tá? — parei pra olhar o maluco melhor. Torquato ainda mantinha a expressão firme de sempre; tava de cavanhaque, muito bem aparado por sinal, o que apenas acentuava os traços fortes do rosto dele. Ainda que passasse de um e oitenta, era mais baixo que eu e os últimos anos que tinha passado na prisão não tinha lhe roubado peso, porque o cara ainda tava forte; não malhado, mas tava muito bem alimentado, o que me tranquilizou.
— Melhor agora, Alemão, que finalmente eu tô solto nesse mundão, como devia ser desde sempre.
— Só na revoada?
Ele riu.
— Revoada boa vai ser quando eu te arrastar pro rolê, Alemão, que eu já tava era vindo aqui pensando nisso. Se bem que vai ser o contrário, nervoso como tu é, quem vai me arrastar pra revoada vai ser você, pô.
— E a mulher vai te liberar depois desses anos todos lá no castigo?
— Vixi, a Debora tá pá na minha já, Alemão. Fala aí pra ele, Capuava. Foi mó perreco ela me deixar vir aqui, mas eu não podia deixar de ver você não, porra. Foi me visitar lá uma só vez, seu lambe saco do caralho. Fiquei bravão com você, Alemão, quando soube que tu foi lá falar com o Café e nem se deu ao trabalho de me ver.
— Eu pedi pra ele, mas ele veio de conversa, falando que eu não podia arrastar com o esquema dos carcereiros e que era melhor ir te ver em dia de visita normal.
Ele apenas resmungou, insatisfeito.
— Mas, então, irmão... eu nem tô censurando a patroa porque tu tá ligado, Alemão, nove anos não são nove dias e a mulher tem ficado do meu lado esse tempo todo, nunca falhou comigo, se eu me mantive são naquele inferno, foi só graças a ela e a Deus que me abençoou com uma mulher dessas que não é todo mundo que tem a sorte que eu tive não. Agora, fi, é ela cuspir na minha cara, que eu recebo de bom grado, que é o mínimo que eu faço depois de todo o apoio que ela me deu.
— É isso aí, mano veio. Tem que dar essa moral pra Debora lá, que o que a mulher fez por você, só mãe que faz e olhe lá.
— Com certeza. E é por isso que quando a gente for na revoada aí, ela vem na bagunça comigo, que eu quero curtir, aproveitar essa minha liberdade aqui, mas é aproveitar com ela, tá ligado.
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Declínio
Misterio / Suspenso"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
