Ainda não tinha dado meia-noite, eu reparei, olhando pro visor do celular com o contato do Gabriel aberto.
Ele ainda não tinha sequer visto o último áudio que eu tinha mandado pra ele.
Eu só esperava que fosse por estar dormindo e não por estar bravo comigo, como eu sabia que ele devia estar.
— Amor... eu sei que eu falei que eu já tava indo pra casa, mas... — esfreguei a testa, tenso. — Mas é que aconteceu um problema lá na casa dos meus pais e eu vou ter que passar lá rápidão pra ver o que aconteceu. Me perdoa. Mas assim que der, eu tô voltando pra casa.
Eu não estava satisfeito com o que tinha mandado e até ensaiei mais uns dois áudios que eu cortei antes mesmo de terminar. Eu me sentia tão acelerado que era como se o mundo todo estivesse rodando em câmera lenta ao meu redor.
E só fui lembrar de que eu tinha largado o Raul lá no Cesinha sem avisar que eu tinha ido embora quando já estava chegando na casa dos meus pais.
Quando o Tatu me ligou, nem tinha passado pela minha cabeça a ideia de raspar lá, mas foi eu inventar essa desculpa pro Gabriel que eu decidi que seria uma boa — e eu sei que tinha prometido a mim mesmo que faria um esforço pra parar de meter o louco pro moleque, mas era mais fácil pensar isso do que falar com algumas coisas, especialmente no que dizia respeito as merdas nas quais eu estava ou era envolvido. Eu ainda não tinha esquecido a última vez em que ele falou que tinha medo de mim...
Assim como o Mateus já tinha me dito, muitos anos atrás.
Eu não queria isso.
E, na boa, eu não acho que fosse estritamente necessário ele saber que eu iria demorar mais pra chegar, depois de ter feito uma merda do caralho com ele, porque o nóia do meu irmão tava tentando roubar os comerciantes do bairro.
E em grande parte, aquela me parecia também uma boa maneira de dar um choque de ordem no viado do Rodrigo. Quanto mais eu demorasse, mais pavor o Tatu trataria de botar nele, eu sabia. Me agradava pensar que naquele momento, o infeliz estivesse se cagando, pensando que eu simplesmente decidi lavar minhas mãos e deixar a decisão sobre o que seria feito com ele nas mãos do Tatu.
Beirando a meia-noite, eu esperava encontrar apenas a minha mãe acordada em casa, assistindo tv, mas quando encostei o carro de frente e vi que a luz da sala estava acesa através da janela, soube que tinha me enganado.
— Mãe — chamei, em tom alto o suficiente para me fazer ser ouvido sem chamar a atenção de toda a vizinhança.
Confusa, ela botou a cara pra fora da porta e pareceu não me reconhecer de imediato.
— Alexandre? — cruzando os braços, ele veio caminhando na minha direção, olhando pra rua, desconfiada feito um gato. — Tá fazendo o que aqui numa hora dessas, menino?
Agora, eu acho que aquilo devia ser parte da nóia da farinha, porque agora que eu me via diante da minha mãe, eu não sabia o que dizer. Eu devia ter planejado essa merda direito.
O que dizer à meia-noite?
Eu quis rir, mas graças a Deus consegui me conter.
— Eu... eu tô voltando pra casa, que eu tava com uns amigos meus e aí eu passei aqui pra ver se tá tudo certo.
Ela enrugou a testa, me olhando sem acreditar numa só palavra.
— E largou o menino lá sozinho, Alexandre? — ela exclamou, em tom de bronca. — Eu falei pra tua irmã que isso não ia prestar, que o melhor era deixar o menino aqui comigo! Tu não cuida direito nem de você mesmo, quem dirá de uma criança. Mas, vai. Entra — bruscamente, ela destrancou o portão e eu entrei.
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Declínio
Misterio / Suspenso"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
