— Que lugar miserável — Helena exclamou, assim que botou o pé na calçada do lado de fora do CDP.
Marlon estava ao lado direito dela, enquanto eu vinha por trás, já que a porta azul escura era pequena pra caralho.
Eu podia me gabar de conhecer muitos dos presídios do estado, mas eu nunca tinha passado perto daquele CDP, ali em Franco da Rocha, o que eu confesso ter me deixado bem irritado, já que tinha um desses lá em São Paulo, para homens, na Marginal Pinheiros, que havia sido a parada obrigatória para todos que eu conhecia que haviam sido presos, o que me levou a acreditar que pudesse haver um CDP pra mulheres também na cidade.
Não que Franco da Rocha fosse longe demais, mas saber que a minha irmã estava tão longe de casa não me agradou.
Marlon tinha vindo com sua HRV e a tinha estacionado logo atrás da minha Jaguar, na rua que vinha de frente com o centro de detenção provisória.
— Foi mais fácil do que eu tinha pensado — ele comentou, rindo pouco.
— O que? — Helena parou no meio da rua, assustada. — Quer dizer que tinha a chance de eu não ter sido solta?
— Com o tanto de pó que encontraram com você, a gente devia era lavar o Marlon com água benta dos pés à cabeça por esse milagre que ele conseguiu te soltando rápido assim — falei.
— Realmente, era uma quantia bastante considerável — ele falou, entregando o habeas corpus na mão dela. — Mas pode ficar tranquila que o pior já passou.
— Tem certeza? — ela duvidou.
— Tenho sim. Você tem um bom histórico. Vem de uma família boa, tem residência fixa, um casamento estável, um filho que estuda numa boa escola, ensino superior, emprego fixo na empresa do próprio irmão, o que reforça a ideia de família boa. Tudo isso conta e muito.
— Casamento estável? — ela repetiu, desacreditada.
— Eu sei como isso soa absurdo em pleno século vinte e um, acredite em mim — ele riu, cansado. — Mas, embora tentem não demonstrar, o judiciário no Brasil é muito conservador ainda. Especialmente para o seu caso que teve o azar, o único eu devo ressaltar, de cair nas mãos de um juiz homem. Pode ter certeza que o juiz te analisaria com um olhar bem mais severo se você não tivesse um "bom" histórico de casamento — ele fez aspas com os dedos ao falar bom —, mesmo se o cenário em que a polícia te encontrasse houvesse sido mais favorável.
— Eu não sabia disso — ela olhou para mim, preocupada.
— Tudo bem que essa visão que estou te passando é mais verdade para esse juiz em específico. Eu conheço o histórico dele. Até pensei em tentar prorrogar para forçar com que o caso fosse transferido para outro, mas isso criaria um precedente ruim para você.
— Marlon, somos seus clientes, não o promotor do caso — o cortei, sem paciência.
Ele deu risada.
— Desculpa, é mania minha.
— Ai, Alexandre. Eu não sou nenhuma analfabeta também. Tô conseguindo entender tudo o que ele tá falando.
— Enfim, pra resumir, é só um toque que eu estou te dando pra quando formos à audiência. O infortúnio com o seu marido ajudou bastante o juiz a amolecer a mão sobre você.
Ela suspirou.
— Ok. Já entendi. Bela, recatada e do lar. Agora, eu só preciso de um banho e dormir como nunca pra, ao menos, tentar voltar a ser "bela".
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Declínio
Mistério / Suspense"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
