Capítulo Quarenta

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É tudo que você sempre quis?

Rag'n'Bone Man – All You Ever Wanted


Ismael filho-da-puta, fiquei repetindo na minha cabeça o caminho todo.

Cara, acho que tava mais do que na hora de relembrar os velhos tempos, quando ele começou a namorar a minha irmã, e voltar a descer o cacete nele como eu tinha feito várias vezes. Não por ele ter feito algum mal direto a ela, mas porra, ela só tinha quinze anos e o desgraçado tinha vinte; fui saber que ficava praticamente todo o dia plantado na frente da escola, esperando ela sair que nem um maníaco do caralho — o que não é tão pior do que você, cuzão do caralho, se envolvendo com um moleque dezessete anos mais novo, minha cabeça reverberou. Foda-se. É diferente... o Gabriel, pelo menos, é maior já... mas será que realmente havia uma diferença muito grande entre a cabeça de uma pessoa com quinze e de outra com dezoito? São apenas três anos...

Tentei dispersar todas aquelas ideias da minha cabeça com a fumaça do cigarro que eu sentia subir e descer pela minha traqueia.

Mas o caso dele era diferente, era.

Por que o Ismael era um filho-da-puta e não era de agora que eu tava sentindo que ele tava zoando a minha irmã de alguma maneira.

E tudo bem que a Jamile não tinha me dado detalhes sobre o que tinha acontecido e pelo que eu me lembrava dela, era exagerada que só a porra, mas eu sabia que tinha o dedo, se não a mão inteira, daquele desgraçado naquela história. E grande ou pequena a merda que ele tinha feito, pra mim não importava. Pra, pelo menos, arrancar uns dois dentes do filho-da-puta, umas porradas ele ia levar.

E não apenas pela Helena.

Porque eu tava o dia inteiro com a rola mais dura que ferro, doido pra chegar em casa e comer o Gabriel e até nisso esse arrombado queria me atrapalhar.

Quando cheguei lá, vi que a luz da sala estava acesa pela janela e tinha uma sombra através da cortina ciscando de um lado para o outro.

Parei o carro bem na frente e fui até o portão.

— Helena!

Em menos de um segundo, a Jamile me apareceu no quintal, desconfiada que só; olhando para os lados da rua.

Tava muito diferente. Tinha pintado o cabelo de vermelho e já não tava tão em forma, embora o rosto estivesse com um brilho bom. Me fez sentir que, talvez, ela estivesse grávida.

— Oxi, tá com essa cara assim por que? — perguntei.

Ela só balançou a cabeça negativamente enquanto ia abrindo o portão.

— Cadê minha irmã? — quis saber, já do lado de dentro.

— Tá na sala.

Apenas a luz da sala e do quarto dela estavam acesas, pude ver pelo corredor inicial.

Fui encontrar minha irmã na sala, sentada no sofá com uma expressão distante. Tinha tomado banho e seu cabelo pingava de tão molhado.

Senti um frio no peito na hora ao vê-la daquele jeito. Ela parecia oca, como se a mente tivesse fugido do próprio corpo e ela não reconhecesse mais nada que estava a sua volta.

— Cadê o filho-da-puta? — perguntei na lata.

Ela levantou os olhos pra mim, abatida, e não disse nada. Seu rosto me dizia que ela iria chorar, mas estava sem forças até pra isso. Ela afastou o olhar de mim e focou no vazio.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora