O nível tava bom, confirmei ao ver a marcação do óleo sobre a vareta; limpei com um pedaço de papel que eu tinha pego no quarto dos fundos e coloquei a vareta de volta.
— Tá arrumando o carro? — Gabriel me perguntou de repente. Nem tinha visto ele ali, logo atrás do capô do carro levantado.
— Não, tava só vendo o nível do óleo — expliquei, voltando minha atenção pra ventoinha que eu tava suspeitando há alguns meses que já não tava rendendo como deveria.
— Ah, meu pai tava sempre fazendo isso — ele comentou, se pondo ao meu lado. Tava tão lindo naquele dia; usando uma camiseta branca e uma bermuda escura bem curtinha, deixando boa parte das coxas à mostra.
Desde a volta de São Sebastião, não tinha rolado muita coisa — e eu podia botar na conta todo o estresse que eu vinha passando com as tretas envolvendo o Comando e até mesmo os problemas que nós tivemos —, mas hora ou outra, eu me pegava olhando pra ele, sentindo falta de socar minha rola sem dó, até ouvir ele gritar, mas... eu tava numa de deixar o moleque se adequar; eu também não conseguia me esquecer do que ele tinha passado com aquele satanás.
— Mas ele fazia mais no posto — ele continuou, projetando a cabeça pra perto do motor. — Lá, também, os frentistas mesmo se oferecem pra verificar, né?
— É, mas não faz muito sentido querer verificar o nível do óleo no posto.
— Por que não?
— Porque o melhor momento pra ver é quando o carro tá frio e num lugar reto, bem plano mesmo, que nem aqui, tá vendo? — indiquei o piso da garagem. — Quando você vê no posto, o carro vai tá quente porque você tava andando com ele até chegar lá, né? Então, desse jeito, o óleo ainda vai tá escorrendo pro cárter, daí você vai ter a impressão de que o nível tá mais alto do que realmente tá. E se o posto não for plano, o que acontece às vezes, você pode ter tanto a impressão de que tem menos ou mais óleo do que tem de verdade.
— Hum, entendi. Faz sentido, eu acho... — ele riu, se abraçando ao meu braço que eu mantinha apoiado na borda do carro. Dei um beijo na cabeça dele. — Mas o que é esse cárter?
— É o reservatório onde fica o óleo.
Ele assentiu com a cabeça, olhando novamente pro motor, acho que tentando descobrir onde é que o cárter ficava.
— E agora que a gente tá falando de carro, seria uma boa eu te levar pra dar uma volta, pra você começar a aprender, né não? — falei. — Prometi que ia te ensinar e até agora nada. Acho que já tá bom de adiantar isso, moleque.
— Mas agora?
— É, eu tava pensando nisso aí ontem... eu tenho uma locação com uns parceiros meus pra usar o autódromo e até tava falando com eles na semana passada e eles têm uns dias de uso nessa semana. Lá é o canal pra você aprender, a pista é larga, tranquila.
— Em Interlagos?
— 'Bora?
— Vamo' — ele abriu um sorriso tímido.
— Beleza, então, só vamo' calçar um tênis pelo menos, porque eles podem chiar. Daí, eu já bato um rádio pros cara lá, avisando que a gente vai encostar. E eu já vou te ensinando o básico sobre mecânica no caminho.
— E eu achando que meu pai entendia alguma coisa — ele falou, rindo, enquanto entravámos de volta em casa. — Mas depois do que você falou do óleo... e foi o seu pai que te ensinou sobre mecânica?
— Não... isso aí, eu aprendi na rua, com meus amigos, quando eu tinha meus quatorze, quinze — depois de ter saído da Febem, me lembrei, olhando pros pés dele conforme subíamos as escadas para o segundo andar. Apesar de haver muito amargor nessas lembranças, tinha muita coisa pela qual eu era grato e feliz de ter vivido durante esse tempo. Apesar dos trancos, eu não achava que minha adolescência tinha sido de todo ruim. — Daí, quando eu consegui comprar um carro pra mim, eu já manjava pra caralho — sorri comigo mesmo, com a lembrança. — Comprei um Gol quadrado, 94, de um cara lá da quebrada, quando eu tinha dezessete. Vixi, minha mãe ficou boladona comigo, não queria nem que eu deixasse ele na garagem da casa que a gente morava, eu tinha que deixar na casa do Torquato... meu pai ficou de boa, ficou de boa porque ele tava sem carro na época e até usou ele algumas vezes.
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
