Hoje tá pro crime
Mc Duduzinho – Tô pro Crime
O bundão arregalou os olhos pra mim, erguendo o braço pra se defender. Toda aquela raiva de que ele se armou pra vir pra cima de mim tinha sumido da sua cara como se nunca houvesse existido.
Mas foi aí também que eu me dei conta do que estava prestes a fazer.
E consegui parar.
Caralho, maluco...
Se eu tivesse acertado aquela porra, com a força que eu tava no braço, na cara dele, eu tinha desfigurado meu irmão.
Era o que acontecia quando me vinha aquela raiva fria, que infla os pulmões, planta a sensação de aflição na garganta e faz tudo passar pela minha visão que nem aqueles filmes que aceleram as imagens numa estrada ou avenida, com as luzes esticadas feito fios de néon.
Abaixei o braço, esfreguei minha cara com a outra mão e fiquei andando de um lado pro outro, tentando dissipar a raiva.
— Vai ficar aí no chão, arrombado? — perguntei pra ele, deixando a chave de roda do lado do carro.
Mano, o Rodrigo tava simplesmente desacreditado com o que tinha visto. Ele ficou calado, com a boca meio aberta, enquanto não deixava o olhar sair de cima de mim — acho que com medo de eu pegar a chave de roda de novo e tentar acertar nele. — Feito um cachorro de rua, ele se levantou, desconfiado.
De pé, o cuzão ficou dividido entre olhar pra mim e olhar pra chave de roda que tava no chão, o bico fechado.
— O que foi? — perguntei, relanceando a chave de roda. — Quer pegar pra tentar me bater? Vai lá, mano. Tenta a sorte.
— Você acha que eu ia tentar te bater com um bagulho desses aí? — ele se afastou, a cara fechada.
— Mas eu tentei, não tentei? — eu tinha perguntado aquilo mais pra mim mesmo do que pra ele.
— Porque você é ruim que nem merda, mano. Não bastasse me arrastar pro pai, queria me matar agora, é?
— Que porra de arrastar pro pai, caralho — exclamei. — Você que me arrastou de madrugada pra ir resolver suas merda e tá aí se achando no direito de reclamar?
— Se era pra jogar na minha cara, nem tivesse feito, mano.
— Então, você ligou pra mim naquele dia por que, caralho? — avancei pra cima dele que recuou, tropeçando num daqueles bolos de mato que crescem no meio da calçada. Por pouco não caiu. — Se tinha outra pessoa pra recorrer, por que veio me parasitar?
Ele não tinha resposta.
Apenas sua cara de cu de sempre.
— Agora tá nessa revolta toda por que? — indaguei. — O pai te bateu?
— Lógico que não.
— Então, eu não tô entendendo esse seu showzinho não, rapaz.
— Acontece que por sua culpa, o pai não quis me dar o dinheiro que ele tinha me prometido pra eu ir retirar a moto lá...
— Ah, vai se foder, caralho — o interrompi. — Eu falei pro pai que você queria retirar aquela bosta do pátio e agora você tá me falando que ele mudou de ideia. Não tô entendendo, mano.
Ele apenas tornou a fechar a cara, sem falar nada.
— Falou porra nenhuma pra ele, seu mentiroso do caralho — avancei mais um pouco. — Tava era enganando o velho pra tirar dinheiro pra ir pegar esse bode que eu já tinha falado pra você que se eu te visse andando nessa porra, tu ia apanhar no meio da rua pra ver se vira gente.
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Declínio
Gizem / Gerilim"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
