Capítulo Cento e Quarenta e Seis

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Não foi escolha minha.

Tem vezes que o corpo parece ter sua própria opinião a respeito das coisas e faz o que acha que tem que fazer.

E, daquela vez, meu corpo decidiu sozinho desviar a atenção dos dois e olhar sem muito foco pro guidão e o painel da moto que mostrava a velocidade — zero —, as marchas, o nível de combustível...

Medo?

Acho que era isso.

Eu tinha sido tão filho-da-puta durante minha vida toda que me tornei arrogante demais pra reconhecer essa sensação. Eu me sentia macho demais pra ter medo de qualquer porra que fosse. E agora que eu pensava nisso, além do próprio medo, me bateu uma vergonha também por me dar conta do quão otário e mongo eu fui por boa parte da minha vida.

E lá vai minha arrogância e cinismo cantar alto de novo com essa história de "por boa parte da minha vida", como se eu tivesse evoluído para um sábio agora.

Que ridículo.

Mas, por quanto tempo eu podia continuar parado ali, apenas olhando pra frente e fingindo que não tinha visto meu moleque beijando aquele desgraçado dos infernos?

Descobri que não muito, porque embora eu ainda fosse um ser humano como qualquer outro e sentisse medo de vez em quando, tinha um outro sentimento dentro de mim que desgraçadamente parecia ser mais forte que todos os outros: a raiva.

Eu suspirei, virei a moto e fui lentamente com ela até encostar na calçada onde eles estavam.

O porra do Arthur ficou me olhando como se quisesse rir.

Já o Gabriel esmaeceu e parecia que poderia desmaiar a qualquer momento.

Por que você fez isso, meu amor? Entalou na minha garganta.

— Que porra foi essa que eu acabei de ver aqui? — foi o que me ocorreu de falar. Chega senti minha voz tremer.

— Desculpa, mas você falou com a gente? — o arrombado teve a audácia de se fazer de desentendido, apertando os olhos pra mim.

Daí, foi-se o limite.

— Seu filho-da-puta do caralho, eu vou te matar aqui mesmo, desgraçado! — e fui com tudo pra cima dele, já metendo um empurrão com as duas mãos no peito daquele miserável.

Por muito pouco, ele não caiu, mas eu não ia parar por ali — acho que nem se eu quisesse, eu conseguiria, tamanha a aflição que apertava meu peito feito uma prensa —, e já tava no engate pra descer o braço naquele arrombado, quando o moleque meio que entrou na frente, gritando:

— Alexandre, para!

— Sai fora, moleque, que essa porra aqui não tem a ver com você não!

— Como que...? — ele começou a protestar, mas eu botei ele pro lado com a minha mão e, sei lá, tive a impressão de que ele ficou surpreso pra caralho por eu ter feito aquilo. Talvez, assustado? Sei lá, mano, eu só conseguia ver o cuzão do federal na minha frente, mais nada. No entanto, o moleque continuou falando, gaguejando mais do que tudo, mas continuou: — eu não, eu não tenho nada a ver com isso? Ele que... ele que não tem...

— O que?! — parei no meio do caminho e olhei pro moleque, sem entender que porra ele queria dizer.

Ele engoliu em seco, abriu os olhos e recuou uns dois passos...

Por quê?

Ele recuou como se eu fosse bater nele?

Mano, eu sei que eu tava meio fora de mim, mas fiquei tão implicado na nóia de deitar aquele verme na porrada que eu não consegui nem pedir desculpas pro moleque por, talvez, tá sendo meio grosseiro.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora