Capítulo Sessenta e Um

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Ele já não se debatia com tanto vigor e os olhos estavam começando a ficar opacos, como se estivesse caindo no sono.

Quando dei por mim, eu estava me adiantando novamente por sobre ele, dizendo:

— Não se mexe — ele nem me ouviu e continuou estirando as pernas. — Não se mexe, porra!

Dessa vez, ele me escutou e foi abrandando os movimentos, mas nem perto de parar como eu queria.

Conforme eu tentava, mais o cinto estrangulava a garganta dele. Não ia demorar e ele apagaria. E eu não era nenhum médico, mas perder a consciência daquele jeito me parecia o suficiente pra zoar a cabeça dele. Finalmente, ele foi diminuindo o ritmo da agitação e, enfim, o fecho atendeu as minhas inúmeras tentativas e soltou a fivela, fazendo com que o meu irmão batesse a cabeça com tudo contra divisória das portas. Entretanto, o baque não foi o suficiente para desacordá-lo.

Resfolegando feito um maratonista, ele recostou a cabeça no banco, enquanto passava a mão pela garganta. A marca ainda não era tão evidente, mas eu sabia que iria ficar... e por uns dias, pelo menos.

Com a mão ainda no pescoço, ele ficou me encarando, o peito subindo e descendo, em busca do oxigênio perdido. O infeliz me olhava como se eu fosse um demônio.

Vai ver eu era um mesmo.

Eu não gostava daquilo, cara.

Eu não gostava desses pensamentos e ímpetos que assaltavam a minha cabeça sem que eu soubesse explicar de onde vinham. Era como se eu não tivesse controle das minhas próprias ações.

Eu não tinha pensado em simplesmente ir até o banco e desafivelar o cinto. Eu apenas fui lá e fiz. Fui lá e fiz.

Eu não gostava disso.

Eu também não me sentia à vontade de encará-lo, então, após relanceá-lo por alguns segundos, eu falei:

— Daqui, dá pra você ir pra casa a pé numa boa. Sai fora.

Ele não me respondeu, nem reagiu.

Apenas ficou lá, me encarando, a mão no pescoço.

— Sai fora, porra! — gritei e ele saiu num segundo. Enquanto ele se afastava, o acompanhei com o olhar.

Meu irmão quase tinha morrido.

Melhor, eu quase deixei meu irmão morrer.

Algo pra se preocupar?

Ao invés de responder, me limitei a ligar o carro e sair fora.

Enquanto cortava pelas ruas vazias, abri o porta-luvas e vi que as besteiras que eu tinha comprado ainda estavam lá, mas de alguma maneira, agora elas não me pareciam ser o suficiente e eu também estava sem cigarro, o que me encorajou a passar no Extra antes de finalmente voltar pra casa.

Não tinha uma alma viva dentro do mercado que não fossem os caixas jogando conversa fora.

Bem próximo à entrada, eu me deparei com a sessão de bazar, eu acho. Haviam alguns travesseiros, lençóis, mantas infantis e... alguns ursinhos de pelúcia. Sei lá, mano, mas um deles me lembrou o Gabriel. Era meio pequeno, o pelo tinha aquele tom de caramelo que me lembrava a pele do Gabriel e usava gravatinha de flanela branca e azul.

Cara, eu acho que eu devia tá chapando, porque eu fiquei ali parado — e pra mim, tinha sido pouco tempo —, mas eu descobri que não havia, quando um dos funcionários me tirou da minha brisa, perguntando:

— Tá tudo bem com o senhor? — era um baixinho meio gordinho usando óculos e uma camiseta do mercado. Eu não soube dizer qual era a função dele ali.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora