Capítulo Vinte e Sete

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— Quantos anos, hein cara? — o desgraçado teve a audácia de chegar em mim todo sorridente e me abraçar.

— E aí, caralho, tá me abraçando por que?! — o empurrei com tudo e ele bateu o pé na guia, conseguindo se manter de pé com muito esforço.

— Calma, cara — ele ergueu as mãos para mim ao se estabilizar, com o rosto apreensivo. O filho-da-puta estava tão parecido e tão diferente ao mesmo tempo. — Calma. Eu sei que você deve tá cismado comigo... depois de tanto tempo e de tudo o que eu fiz.

— E qual o motivo desse teatro, filho-da-puta? — o questionei. — "Quantos anos, hein cara?" — o imitei. — Você me viu naquela porra umas semanas atrás e sumiu quando se ligou que eu tinha te reconhecido. Tá achando que eu esqueci a trairagem que você fez?

— Poxa, Alexandre. Faz quase dez anos isso aí...

— Vai se foder, seu arrombado — botei minhas mãos na cintura e olhei a rua, de um lado para o outro. Tinham algumas pessoas passando por ali e alguns na frente do bar, mas ninguém nos olhava. Talvez, desse pra eu apagar ele ali na porrada, muquiar ele pra dentro do carro e finalizar aquele assunto de uma vez num lugar mais de boa. — Que merda você quer voltando pra cá depois de tanto tempo?

— Eu nunca fui embora — ele sorriu.

— O que...?

— Eu só mudei de bairro, mas tô aqui em São Paulo desde aquele tempo.

Ele tava diferente pra porra...

A pele tava mais escura e ele mais magro. E tinha umas tatuagens no braço e na perna e usava o corte de cabelo parecido com o meu; ele que sempre usou aquele cabelo de boyzinho.

Eu me afastei um pouco e ri.

— Foi pra isso que você apareceu aqui? — perguntei. — Pra se engrandecer pra cima de mim? Veio falar: eu tava esse tempo todo embaixo do seu nariz e você nem percebeu? Você achou mesmo que eu tava atrás de você esse tempo todo?

Ele não falou nada, mas a expressão de serenidade que ele tinha na cara se foi.

— Maluco, se eu quisesse te achar, eu teria te achado — falei, voltando a me aproximar dele. — Sabe por que eu não fui atrás do seu rastro? Porque você armou aquele circo todo, tentou passar a perna em mim, no velho e no fim, não arrumou nada. Acabou levando a mina pro saco, não ganhou nada do velho porque ele também foi, não arrumou nada comigo porque agiu na trairagem, ainda tomou um tiro e teve que se esconder que nem um rato, em choque de eu dar fim em você.

Cabisbaixo, ele ficou balançando a cabeça, como se concordasse com tudo o que eu dizia.

— Eu vou admitir que eu fiquei um tempo no ódio de você, cara — ele falou, ainda com a cabeça baixa. — Mas, pra mim, isso ficou no passado.

Eu gargalhei alto.

— Você ainda teve a audácia de sentir raiva de mim, sendo que foi você que quis me foder? Mas você é engraçado, maluco...

— Eu não tô falando que eu tava certo em sentir raiva, mas eu senti, cara. Eu senti.

— E aí? Qual a importância de eu saber disso?

— Nenhuma... — ele olhou para o lado, sem jeito. — Eu só vim aqui porque... eu não sabia que ia trombar com você agora; eu sabia que o carro era seu porque eu já tinha visto você nele antes e...

Mais uma vez eu ri, cortando o papo furado dele.

— Isso aí é pra me deixar incomodado? — quis saber. — Você tem me seguido esses dias, fazendo aquelas aparições... mano, você não mudou nada. Incrível, cara. Continua mongo que nem sempre. Que porra é essa, mano? Me fala aí... achou que ia me botar num jogo psicológico e me deixar assustado com essa merda? Cara, nem naquela época nem agora você não tem nada contra mim. O que? Vai na polícia me denunciar? Quando o seu rabo tá mais sujo que o meu nessa história? Porque eu fiz o que fiz do meu lado, você fez merda dos dois. E tem outra também, que é o mais importante: eu tenho dinheiro e você não tem nada. Porra nenhuma.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora