Tem mina terrestre em cada palmo do chão
Dias melhores não virão
Facção Central – Dias Melhores Não Virão
— Mirtes, você aqui? — apoiei uma mão na cintura e fiquei olhando a piranha velha de cima abaixo. Tinha se arrumado toda, se maquiado, como se aquilo fosse criar a impressão de que não estava tão abaixo de mim. Eu conhecia pouco da família do satanás do Ismael, mas a fama de pobre e soberba da desgraçada era grande o bastante pra furar essa barreira. Desde que eu tinha comprado a Vargo e incluído minha irmã no trampo comigo, a vagabunda passou a se incomodar com o fato de que a nossa família tinha mais dinheiro que a dela e eu sabia pela Helena que ela fazia o possível pra tentar nos menosprezar. — Nunca tinha pisado o pé na minha empresa antes.
— E não pense que me agrada estar aqui não, viu? — provocou, sem deixar de bater o pé.
Eu dei risada.
— Então, que porra que você tá fazendo aqui?
Ela chegou a abrir a boca pra me responder, mas foi quando me deu aquele estalo e a interrompi, acrescentando:
— Não, não... pensando bem, foi até bom você ter vindo, porque eu tava mesmo querendo falar com você, mas eu tinha me esquecido. Eu quero falar com você sobre essa sua palhaçada de ficar impedindo minha irmã de ver o moleque.
— Eu não vim aqui pra falar do meu neto — ela retorquiu. — Que, só pra você ficar sabendo, tá muito bem lá com a gente. Muito melhor do que ele estaria se eu tivesse deixado ele com vocês, que é um bando de gente que não presta. Maldita hora que o meu filho caiu na conversa daquela lá.
— Toma vergonha na sua cara, mulher — exclamei, sem paciência pra papinho furado. — Você tá me achando com cara de otário, porra?! Eu tava lá quando você fez aquela merda de levar policial pra minha casa, no meio da noite, pra arrastar o coitado do meu sobrinho, como se ele fosse um cachorro, só por despeito. Você é baixa pra caralho, um lixo, porra! Você...
— Não é só porque eu tô aqui nessa sua porcaria que eu vou ficar aguentando...
— Você vai aguentar escutar, porque você é uma filha-da-puta, vagabunda do caralho! — a interrompi. Nem tinha me ligado se era a Rose que tava na recepção, mas pelo canto do olho, pude notar que a menina que tava lá se apavorou, pulando pra fora da cadeira com tudo. Se foi pra chamar um segurança ou qualquer merda assim, não soube dizer, mas também nem me importava. — Você viu e ouviu o que o moleque falou! O moleque nunca quis ficar com vocês, nunca nem foi próximo de vocês como era da gente. Passou por essa merda toda, sempre viveu com o pai e com a mãe e agora que o pai sumiu, você ainda vai e tira ele da única pessoa que ainda tá aqui, que sempre teve com ele?
— É a única pessoa porque você sumiu com o meu filho! — ela apontou o dedo na minha cara. — Você! Não vem querer se fazer de inocente pra cima de mim, porque o único bandido nessa história toda é você!
— E por que eu iria querer sumir com o teu filho? — me arrisquei a provocar, uma sugestão de sorriso a surgir na minha boca. — Você não tá sempre falando aí, de peito estufado, que o Ismael era trabalhador, gente boa, honesto, um bom marido, que a minha irmã tinha era que ser grata de ter um marido tão bom... por que então eu iria querer sumir com o cara que fazia tão bem pra minha irmã? Qual a lógica?
Ela se retraiu, sem deixar de me encarar com um ódio dos infernos, mas se retraindo, ainda assim.
Era o ponto limite da provocação pra mim; eu não iria mais fundo.
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
