— Caramba, Grandão. Mas acabou com a minha diversão mesmo, hein? — ele deu uma risada sem graça, evitando de me olhar nos olhos.
Eu não tava acreditando naquilo, cara.
Não tava mesmo.
— Que palhaçada é essa, caralho? — reclamei.
A expressão de moleque sendo pego aprontando alguma dele foi substituída por outra que era em partes de raiva, em partes de não entender o que estava acontecendo. A menina, por outro lado, estava perfeitamente bem em seu papel; até sorrindo estava, como se todos tivessem que aplaudir o show que proporcionou junto com o filho-da-puta.
— Não tem palhaçada nenhuma aqui não, Grandão — ele contrapôs, emburrado. — Tá falando comigo assim por que?
— Ah, não tem palhaçada nenhuma não — debochei, rindo. — Eu aqui fora, tava ouvindo toda essa patifaria que tava acontecendo aí dentro e você vem meter essa pra cima de mim? Tá ficando louco, caralho?
— Ué, Grandão... eu, essa... a empresa é tão minha quanto sua — que raiva, irmão. Se tinha algum filho-da-puta que passava a vida inteira tergiversando, era esse cuzão do Ademir. Como podia ser tão filho-da-puta e tão frouxo, caralho? Como?
Ergui minha mão pro alto e fechei meus olhos com força, tentando escoar a raiva pra algum lugar.
— Cala a boca, caralho... cala a porra dessa boca — suspirei e encarei a menina por dois segundos. Talvez fosse apenas a minha ira tomando conta da minha visão, mas posso jurar que tive a impressão de que ela tava gostando do espetáculo. Tentei canalizar minha atenção pro Ademir de volta e falei: — manda a menina embora pra gente resolver esse assunto agora.
Ele me olhou, quase olhou pra ela, hesitou e conseguiu falar num tom baixo:
— Eu falei pra você que aqui é tudo tão meu quanto seu, Grandão. Não tem essa de mandar ninguém embora se eu não...
— Manda a menina embora pra gente resolver esse assunto agora, caralho! — repeti pausadamente.
Resignando-se, ele olhou pra ela de canto por alguns segundos, calado, acho que tentando segurar a humilhação por tanto tempo quanto lhe fosse possível e finalmente cedeu, como deveria fazer desde o começo, falando:
— Me espera lá no carro que eu já tô indo.
Quieta, ela passou por nós me lançando um último olhar que trouxe consigo uma sugestão de riso que não me agradou em nada, cara. Porra, será que essa desgraçada tava achando que eu armei tudo aquilo por ciúmes dela?
Assim que ela virou o corredor, eu empurrei ele pra dentro da sala e fechei a porta atrás de mim, sem tirar os olhos dele.
— Caramba, Grandão, eu tava quase gozando...
— Parou, Ademir. Parou, na boa — colocando a mão na cintura, tentei reorganizar meus pensamentos. Éramos sócios tinha mais de oito anos, conquistamos tantas coisas... então, por que era tão difícil pra esse filho-da-puta deixar a molecagem de lado e agir com a cabeça? Por que ele não conseguia deixar a emoção de lado? E, porra... era logo eu que tava me questionando sobre isso; o maluco do caralho que vivia desde moleque no fio da navalha, a uma palavra de morrer. Só que eu sabia diferenciar... a Vargo não era como os meus esquemas de antigamente que eu podia jogar desconsiderando as regras e o mais adequado e só fazer o que eu queria e achava como melhor pra mim. Esse desgraçado não conseguia enxergar que comprar briga com a mulher naquela altura do campeonato simplesmente arruinaria com tudo que tínhamos construído ao longo desses anos? — Que merda foi essa aqui?
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
