Se eu já não usasse cocaína há tantos anos, diria que tudo aquilo era apenas uma noia da minha cabeça.
Porque, caralho, como o maluco tava tendo a ousadia de fazer uma palhaçada daquelas com tanta gente no posto ao lado e a mulher tava gritando e tudo.
Mas com a música alta, o pessoal ficando chapado, parecia que ninguém ouvia. Eu mesmo só fui escutar quando entrei na porra do beco.
Sem pensar mais, eu corri na direção deles e já cheguei sentando o pé nas costas do maluco que rolou contra o mato que se estendia para trás do beco e levava a um córrego mais atrás.
A mulher se agarrou nos meus braços, desesperada, mas eu não consegui discernir o rosto dela direito naquela escuridão. Era quase como se eu tivesse sonhando.
— Ele tá voltando, moço! — ela gritou, querendo fugir.
Me virei e dou de cara com o satanás avançando pra cima de mim já sem as calças.
Normalmente, uma confusão desgraçada daquelas seria mais do que o suficiente pra acabar com a alegria de qualquer um, mas aquele cão parecia estar gostando ainda mais do desafio, pois eu reparei, através da luz cada vez mais ausente dos postes lá na rua, que ele ainda tava com o pau duro.
Mas não foi apenas isso que eu reparei.
Eu tava com o facão que tinha usado para sulcar o pneu nas minhas mãos.
Bem, normalmente, atacamos a coisa que está causando problemas quando temos a oportunidade, certo? E, naquele momento, o maior problema era...
Foi que nem cortar legume, irmão.
Desci a lâmina que tava afiada que só uma porra contra o pau do infeliz e só na loucura de já ter descido o braço que eu fui me ligar no quê fazia o pau ficar duro, mas aí... aí era tarde demais.
Pra efeito de comparação, eu podia dizer que foi como estourar uma bexiga cheia de molho de tomate, porque foi rápido, mas eu senti na minha mão que o bagulho tava quente. Especialmente porque aquela era uma noite fria.
Não dava pra ver nada direito naquela falta de escuridão, mano.
Mas mesmo loucão da cabeça, eu sabia que tinha sido uma sujeira do caralho.
Senti meus braços pegajosos e pretos, mas continuei avançando mesmo assim.
Ele caiu no chão, gritando tão alto e de uma forma tão estranha que nem parecia uma pessoa. Tá ligado aqueles guinchos que os porcos soltam na fila pro abate? Era algo parecido.
Ele ficou rolando de um lado para o outro, com as pernas encolhidas, como se isso pudesse aplacar um pouco a dor.
Na tentativa de ajudar, sentei uma bicuda nas costas dele. Mas a minha visão tava embargada da pinga e eu acabei raspando o facão contra o chão quando tentei acertá-lo uma segunda vez. Pensei não ter empenhado muita força, mas provei estar errado quando as faíscas cintilaram no raspar da lâmina contra o concreto.
Eu tava alto, mas parecia que ele não, pois mesmo ainda relinchando de dor, ele deu um jeito de rolar ainda mais para o lado e se erguer, tentando fugir na direção do córrego.
Só que eu tava bem e fui rápido o bastante para acertar outra bicuda nas costas dele que o jogou contra o mato.
Na horizontal, deslizei mais um corte com o facão e esse eu senti que pegou. Ele usava uma camiseta meio amarela, laranja, não sei; só sei que o corte na camisa ganhou um tom mais escuro.
Facão afiado da porra, pensei comigo.
Ele se virou, ficando de frente pra mim, mas ainda deitado sobre o mato.
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
