Capítulo Oitenta e Nove

2K 146 256
                                        

Acabamos dormindo mais do que eu esperava.

Fomos acordar só quando o quarto estava completamente escuro. Pela porta de vidro que ainda estava aberta, pude ver alguns pontos de luz no horizonte que eu acreditei estarem vindo dos barcos que eu sabia sempre estarem por ali, no espaço de água entre o continente e a Ilhabela.

Até sugeri que ele finalmente fosse até a beira da praia pra sentir a água e "completar" a experiência de conhecer o mar de verdade, mas ele cismou em fazer tudo como se fosse uma espécie de ritual e decretou que só o faria de dia, o sol lhe permitindo não deixar escapar um único detalhe que fosse.

Então, passamos o resto da noite assistindo televisão, pedimos uma pizza e ele se contentou em permanecer deitado na cama, virado pra parede de vidro — com a porta aberta, assim como ele me pediu —, enquanto a brisa soprava muito suavemente pra dentro, fazendo a cortina branca tremular em câmera lenta; já tínhamos desligado a tv a essa altura e o único som além da nossa respiração e da minha mão passando por cima do corpo dele, era o chacoalhar da água; indo e voltando...

Indo e voltando...

Havia sido uma noite fresca.

E antes que eu me desse conta, estava dormindo novamente.

Por sorte, consegui acordar antes dele.

Acredito que pela claridade do dia, pois havíamos dormido tão inesperadamente que acabei me esquecendo de fechar a porta e a cortina.

Uma só olhada e tive a certeza de que aquele seria um dia ainda mais limpo que o anterior.

Deslizei pra fora da cama no passo de gato e decidi ir até o centro, numa padaria que eu costumava ir sempre que passava uns dias por ali e comecei a me lembrar da primeira noite que ele tinha dormido comigo, quando eu tinha metido o louco pra ele falando que, apesar de estar acostumado a dormir sozinho, eu gostava de dormir abraçado... "sem maldade", acho que eu tinha acrescentado. A lembrança me fez rir, conforme eu pegava o bolo com a balconista.

Se levei meia hora por lá foi muito, mas por sorte não faria diferença, pois assim que cheguei em casa, percebi que ele ainda estava dormindo.

Tinha pouca coisa nos armários e agora que eu tinha um tempo pra prestar atenção nos detalhes, reparei no trabalho bem feito que o Rosa — o parceiro que morava na cidade; era até bem conhecido pelo pessoal lá da capital, e cuidava de muitas das casas vagas da região, incluindo a minha, desde que a tinha comprado — estava fazendo. Tudo bem que o maluco me conhecia o bastante pra saber pisar com muito cuidado ao meu respeito, mas eu não pude deixar de me sentir bem em ter a confirmação ali que ele não tava zoando com a casa. Tudo limpo e no seu devido lugar, sem tirar nem pôr nada.

Passei um café e como eu tava querendo impressionar, tive a ideia de montar uma mesa pra nós dois no deck que se estendia até a piscina, nos limites do terreno, pra que ele pudesse sentir o ar fresco que tava lá fora enquanto comia.

Nem sempre as coisas costumavam dar tão certo pra mim, mas foi como se, ao pôr os pés na cidade, minha sorte tivesse mudado, já que tudo tava se encaixando como eu queria. Das grandes coisas aos mínimos detalhes, como ter o moleque acordando somente pouco após eu ter terminado de organizar o bagulho. Eu tava encostado à grade de madeira que cercava o ponto mais alto da área externa que ficava aos fundos da casa e se limitava com os degraus que faziam o acesso para a faixa de areia mais adiante.

Tinha parado só pra fumar um cigarro, mas me peguei observando os pipas que a molecada desbicava por sobre o mar — ousados pra caralho, pensei comigo ao ver o jeito como um dos moleques desceu um retão da porra, quase afundando o peixão na água. Se o outro não tivesse desbicado pro lado, tinha cortado na mão sem dó.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora