Você está desaparecendo
Somos estranhos na noite
Não tem volta
Somos estranhos na noite
Roosevelt - Strangers
Tanto o portão quanto a porta de entrada que eu vi o Gabriel usando pra entrar tinham sido deixados abertos por ele, mas como na maioria das casas da quebrada, não me parecia que eles as mantinham fechadas, exceto de noite, antes de dormir.
Então, eu não precisei chegar arrombando nada.
Mas foi eu entrar na sala que o irmão do Gabriel pulou sobre o sofá, dizendo assustado:
— Eita porra!
O sofá onde ele tava ficava encostado na parede do cômodo ao qual o Gabriel estava, bem perto da entrada que não tinha porta.
— O que foi? — era o pai deles que saiu do quarto e me olhou, confuso. — Quem é você...? — ele tinha começado a fechar a cara, irritado, mas foi ver a peça na minha mão que mudou de ar rapidinho, falando agora de forma mais mansa, como eu bem queria: — mas o que é isso, cabra? Eu só...
Nem deixei o filho da puta terminar e virei uma coronhada na cara dele que caiu com tudo no chão. Que tivesse quebrado uns dois dentes, pelo menos, pra ver se aquele lixo do caralho aprendia a virar gente.
Já na sequência, eu me vi abaixado por sobre ele e foi uma coronhada atrás da outra, já manchando o ferro de sangue.
— Para, Alexandre! Pelo amor de Deus! — era a voz do Gabriel e eu sabia que era o seu toque tentando me puxar pra trás, mas eu nem me mexi, cara. Posso dizer que dei mais umas quatro na fuça daquele cuzão do caralho até ceder aos gritos do moleque.
— Isso aqui é só o começo, seu filho de uma puta do caralho! — gritei pra ele, enquanto me levantava. — O moleque tá comigo, tá entendendo, cuzão?
Eu tinha que, ao menos, reconhecer que o verme tinha lá sua resistência, pois mesmo após as pancadas e com a cara ensanguentada ao redor do nariz e da boca, ele se sentou no chão depressa, mas com um ar meio zonzo nos olhos.
— Tá com... você é... ele é meu filho, cabra — ele foi dizendo. — Eu tava... meu filho... eu tava falando com o meu filho. Isso aí é assunto só meu e dele. Eu tava conversando com ele.
Mano, minha cabeça tava tão a milhão que só Deus poderia explicar eu não ter descido o pé na cara dele.
— Tava conversando uma porra, seu verme do caralho! — aí sim, eu tive a minha explicação e subi uma bica na cara do desgraçado que voltou ao chão com tudo.
— Alexandre, para! — Gabriel me puxou de novo, mas nem liguei.
— Tá me tirando de otário, ô filho da puta?!
O bicho era duro que nem pedra, maluco. Mesmo depois de uma bica daquelas, ele voltou a se sentar, ainda mais lesado que antes, mas firme o suficiente pra se manter sentado, mesmo assim.
— Eu tava lá fora, escutando tudo, rapaz — continuei. — Eu vim aqui dar um suporte pro moleque, pra ele poder vir buscar as coisas dele e o coitado mal botou o pé dentro dessa merda, você já foi pra cima dele e tem a cara de pau de ser cuzão o suficiente pra meter o louco pra mim? Mas é o seguinte... é pra você ficar bem ligeiro que o moleque não tá desamparado nessa porra não, entendeu? O moleque vai trampar comigo e tudo... — bom, isso aí eram apenas projeções, mas eu tava bem confiante de que podia convencer o moleque que eu podia ser o cara certo pra ele. E quando a gente quer um bagulho, com a intensidade que eu queria aquilo, mesmo soando brega pra caralho, eu conseguia acreditar que nada era grande demais para nos impedir. Conseguia, não. Talvez, quisesse muito acreditar que sim.
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
